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Vicente Celestino, a voz orgulho do Brasil

14 de novembro de 2013


Estamos numa época de loucos. Eu tenho medo que se agrave cada vez mais.

Vicente Celestino

 

Um dos projetos mais importantes do Museu da Imagem e do Som, o Depoimentos para a Posteridade foi criado em 1966, tendo como objetivo registrar em áudio a vida de personalidades das mais variadas áreas, como artes plásticas, carnaval, ciência e tecnologia, cinema, dança, esporte, história, jornalismo, literatura, música erudita, música popular, política, rádio, teatro, televisão, etc. Até os dias de hoje, a lista de depoimentos já passa dos mil registros, não podendo deixar de lembrar que a partir de 1994 passaram a ser gravados em vídeo.

O cantor, compositor e ator Antonio Vicente Filipe Celestino nasceu aos 12 de setembro de 1894, no bairro de Santa Teresa, Rio de Janeiro. Era filho de imigrantes italianos da Calábria. Durante sua carreira gravou 137 discos em 78 rpm, com 256 músicas, dez compactos e 31 LPs, onde também foram gravadas reedições de seu antigo repertório. Participou de óperas e operetas, musicais, filmes cinematográficos, programas de rádio e televisão. Foram cinco décadas de atividade artística.

Em 19 de abril de 1967, Vicente Celestino, “A voz orgulho do Brasil” (apelido que recebeu do radialista César Ladeira), prestou seu depoimento ao MIS, tendo como entrevistadores Ricardo Cravo Albin e Hélio Mariz Davi, representantes da instituição, Almirante e Paulo Tapajós, pesquisadores da MPB e radialistas, e Gilda de Abreu, esposa de Vicente.

O depoimento, de 1h52m, foi gravado em fita magnética e, posteriormente, remasterizado, digitalizado e dividido em 16 faixas, sendo a de número 4 selecionada para ilustrar o presente artigo. Vicente, nessa faixa, respondendo a Paulo Tapajós, falou dos problemas que teve com suas primeiras gravações, seu posicionamento ante o microfone, sua saída da gravadora Odeon, a passagem pela Columbia e, finalmente, a RCA Victor, na qual passaria 33 anos.

Em 1968, durante o movimento da Tropicália, Caetano Veloso gravou um dos maiores sucessos da voz e autoria de Vicente Celestino: “Coração materno”. A repercussão foi tremenda… E, pouco mais tarde, na companhia de Gilberto Gil, criou um programa de televisão em contraponto ao do pessoal da Jovem Guarda. Achava, inclusive, que deveria homenagear grandes nomes do passado. Vicente foi, então, convidado para se apresentar nesse programa, que seria transmitido, ao vivo, a partir de uma boate no centro de São Paulo.

À tarde, durante os ensaios, Vicente viveu duas fortes emoções. A primeira após ensaiar seu número, quando recebeu impressionante ovação de todos os presentes, dos técnicos aos artistas. Teria dito o cantor: “Abri o peito como há muito tempo não o fazia. Até os músicos me aplaudiram!” A segunda se deu quando assistia ao ensaio de uma representação da Santa Ceia, tendo Gil no papel de Jesus Cristo.

Em 6 de junho de 2012, no intervalo do depoimento de Gilberto Gil ao MIS, fui dar um abraço no grande mestre da música brasileira. Eu estava acompanhado da neta de Vicente, Daise Celestino. E, ao apresentá-la, Gil, imediatamente, passou a nos contar a respeito desse episódio, pegando todos de surpresa.

Mesmo não tendo podido gravar as palavras de Gil, meu amigo e colega do MIS, João Pimentel, pelo menos, fotografou o encontro. E com o dedo indicador levantado, assim como Vicente o fizera naquela tarde de 1968, Gil repetiu-nos, uma a uma, as palavras do cantor: “Eu posso aceitar um Cristo Negro, mas o pão sagrado ser substituído por uma banana, isso nunca!”

Outro que testemunhou a reprimenda de Vicente na rapaziada foi o saudoso Rogério Duprat, e do site tropicalia.com.br destaquei as palavras de Duprat à escritora Ana de Oliveira: “Esse show fazia parte da intenção tropicalista de retomar coisas antigas da música popular brasileira. Vicente Celestino era o homem da tragédia. Foi isso que o atraiu ao evento na Som de Cristal, um ambiente dancing cafona, com dançarinas profissionais. A cada dança, os cavalheiros tinham os seus cartões perfurados, pra pagar na saída. O cafonismo era outra forma de manifestação tropicalista. Com todas as Ângelas Marias da vida, o cafonismo enraizou-se nos corações brasileiros. Contratamos a Som de Cristal para o show, e lá estavam as dançarinas também, a postos pra trabalhar normalmente. Vicente Celestino chegou a mim e disse: ‘Maestro, estão todos loucos aqui!’ Ficou tão chocado que de noite não voltou.”

Sim, é verdade, Vicente não voltou. Ele foi para o Hotel Normandie e, à noite, após o jantar, passou mal e morreu. Era 23 de outubro de 1968. Faltavam 20 dias para completar 74 anos.

Até hoje, há informações controversas sobre os últimos momentos de Vicente. Uns dizem que ele estava no quarto sozinho. Outros afirmam que Gilda o acompanhava. A própria Gilda disse, mas não me lembro onde, que não viajou, mas que estimulara a ida do cantor a São Paulo para que ele, quem sabe, se alegrasse.

Certa feita, eu estava sentado no saguão do Normandie, entre Linda Batista e Herivelto Martins, quando este último me disse (apontando na direção) que Vicente caíra morto em frente do balcão da recepção, exatamente na hora em que deixava o hotel rumo à boite Som de Cristal…

Além do preciosíssimo depoimento prestado por Vicente Celestino, o MIS também possui aquela que talvez tenha sido sua última entrevista. Feita para a Rádio Gazeta, no mesmo dia da chegada a São Paulo e, possivelmente, depois do ensaio, Vicente, nessa entrevista rapidinha, pois são apenas 2m32s, termina com as seguintes palavras: “Ninguém mais se entende. As nações não se entendem, os homens não se entendem, as religiões não se entendem… Estamos numa época de loucos. Eu tenho medo que se agrave cada vez mais. Felizmente, estou no fim da vida e não vou ver a catástrofe…”

Em 12 de outubro de 1974, a cantora lírica, atriz, escritora, diretora de cinema e roteirista Gilda de Abreu retorna ao MIS, mas, agora, para prestar o seu próprio depoimento, lembrando, contudo, a figura imortal de Vicente Celestino. À mesa dos entrevistadores, Álvaro Cotrim, diretor da então Fundação Vieira Fazenda (MIS), Arminda Villa-Lobos, diretora do Museu Villa-Lobos, Renato Murce, radialista, Ary Vasconcelos, jornalista e pesquisador, Ernesto Saboya (MIS) e Floriano Faissal, radialista.

 

Luiz Antônio de Almeida
Chefe da Sala de Pesquisas
Pesquisador da Música Brasileira

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