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TRIBALISTAS – Marisa Monte, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown (2002)

18 de novembro de 2016


 

Dentre uma enxurrada de produtos internacionais invadindo as rádios brasileiras, surgiu, talvez, o maior sucesso radiofônico da música brasileira neste século. Nossa 21ª edição da Discoteca Básica Brasileira do Século XXI MIS apresenta “Tribalistas”, projeto de Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Marisa Monte, trabalho que já havia sendo ensaiado na década anterior, com inúmeras gravações e parcerias entre os três artistas.

Como os três afirmaram em entrevistas, tudo aconteceu sem grandes pretensões. Carlinhos Brown estava produzindo, junto com Alê Siqueira, o produtor também de “Tribalistas”, o disco “Paradeiro”, de Arnaldo Antunes. Eles chamaram Marisa Monte para participar da faixa-título com Arnaldo, uma parceria entre os três. Foi o estopim de tudo, começaram a compor nesses dias e logo chegaram a duas dezenas de músicas.

Mas antes, todos precisavam encerrar os projetos que já estavam fazendo. A reunião final, o encontro e a gravação de “Tribalistas” aconteceu apenas um ano depois.

Com uma sonoridade acústica, o trio recebeu apenas as participações de Dadi Carvalho e Cézar Mendes, que, assim como eles, participaram de todas as faixas e tocaram diversos instrumentos, além de Margareth Menezes que cantou “Passe em casa”, música que também é parceira.

O disco abre com “Carnavália”, em tom de saudosismo, daquelas canções que nos fazem lembrar de carnavais passados e brinca com o nome das escolas de samba:  “Na Portela tem Mocidade/  Imperatriz/ No Império tem/ Uma Vila tão feliz/  Beija Flor, vem ver/ A porta-bandeira/  Na Mangueira tem morena da Tradição”. É interessante notar a sonoridade do violão de náilon de Cezar Mendes em contraponto ao violão de aço de Dadi Carvalho que faz a base rítmica.

“Um a um” trabalha ainda mais o vazio das canções, fato comum em todo o projeto, sem grandes massas sonoras. Apenas uma percussão sútil de Carlinhos Brown, junto com sons de computadores, baixo elétrico de Dadi Carvalho e o violão de Marisa. “Muito além do tempo regulamentar” funciona aqui como “Depois de esgotar o tempo regulamentar”, trecho de a “Menina dança”, de Moraes Moreira e Galvão, dos Novos Baianos.

Aliás, os filhos dos baianos, Davi Moraes e Pedro Baby, assinam junto com o trio a próxima canção, “Velha infância”, um enorme sucesso do disco, primeiro lugar nas rádios do Brasil.

“Passe em casa” recebe Margareth Menezes, artista que estava sendo produzida por Carlinhos Brown na época, diva do carnaval baiano que chega com: “Se você não passa no morro/ Eu quase morro, eu quase morro”. Durante toda a música, uma gaita/harmônica dá para ser escutada ao fundo. Quem gravou foi a própria Marisa Monte.

“O amor é feio” tem protagonismo da voz de Arnaldo Antunes e traz a ambiguidade que pode ser a palavra amor, do extremo:  “O amor é sujo/ Tem cheiro de mijo/ Ele mete medo/ Vou lhe tirar disso” para “O amor é lindo/ Faz o impossível/ O amor é graça/ Ele dá e passa”. Uma típica poesia do compositor paulistano.

“É você” marca o belo dueto entre Marisa Monte e Carlinhos Brown, balada romântica com a a forte intuição melódica de Brown somada a voz delicada e limpa de Marisa.

“Carnalismo” é assinada também por Cézar Mendes. Uma típica seresta com um arranjo delicado. Dadi Carvalho gravou acordeom e piano nessa belíssima canção, às vezes, pouco lembrada neste trabalho.

“Mary Cristo” funcionaria como uma tradicional canção de natal, mas o bom velhinho ganha novas características, carnavalescas, com a frase, “Papai Noel/ Momo do céu”.

Depois de uma música de natal, “Anjo da guarda” é uma canção de ninar “Escureceu, o sol baixou/ Anjo da guarda cantarolou/ Nana neném/ Nana neném/ Cacheadinho, anjinho”, mas acende ao final com tons de coloquialidade: “É de manhã/ Sai da cama/ Havaiana no pé/ Apostila na mochila/ E na mão um café”.

“Lá de longe” é um mantra, uma oração, com a voz de Marisa Monte em primeiro plano “Lá de longe/ de onde toda a beleza do mundo se esconde”, é cíclica, bela, feita na época em que Marisa foi para o Nepal, em 1993. Ela só foi ser finalizada com os “Tribalistas, que também abusa das imagens fantásticas: “Uma voz que se expanda e suspenda esse instante”.

“Pecado é lhe deixar de molho”, uma bossa nova, canção de entrega, de paixão, que reconhece os desvios da vida: “Não, eu não vou me vingar/ Se você fez questão/ De vagar o mundo/ Não vou descuidar/ Vou lembrar como é bom/ E ao amor me render”. Outra canção que Marisa canta com protagonismo.

O tom romântico abre espaço para o grande sucesso do disco, “Já sei namorar”, canção que tocou em todo o mundo, indicada ao Grammy Latino de 2003 nas categorias Gravação do Ano e Melhor Canção Brasileira. Com versos simples, como “Já sei namorar/ Já sei beijar de língua/ Agora só me resta sonhar”, bateu forte nos ouvidos jovens do país todo, chegando ao primeiro lugar das rádios nacionais e provando que a música brasileira ainda tinha fôlego entre todas as idades e classes sociais. “Já sei namorar” era uma melodia antiga de Marisa Monte, feita na época de “Beija eu”, 1991, com Arnaldo Antunes, mas que foi só ser concluída nesse disco.

“Tribalistas” encerra o trabalho com o manifesto que reforça a ideia do coletivo: “Dois homens e uma mulher/ Arnaldo, Carlinhos e Zé”, esse último em alusão ao apelido familiar de Marisa Monte, e fecha explicando o não-movimento:  “O tribalismo é um anti-movimento/ Que vai se desintegrar no próximo momento”. E de fato foi assim. Quatorze anos depois, apesar das inúmeras tentativas de empresas, gravadoras, o grupo não lançou um novo disco ou saiu em turnê, que aliás, nunca aconteceu, já que houve pouquíssimas apresentações com os três, todas em momentos especiais.

O projeto foi lançado na época em CD e DVD, já com os bastidores. Tudo bem amarrado com sacadas que seriam repetidas inúmeras vezes nos anos seguintes. “Tribalistas” foi feito na base da espontaneidade dos anos 1970 – busca ainda tão atual no caos que vivemos no mundo, no país, e um pouco na nossa música – e comprovou que a música brasileira pode também ser pop e invadir terrenos rivais.

 

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