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PAULO CÉSAR PINHEIRO – CAPOEIRA DE BESOURO (2010)

21 de outubro de 2016


 

“Cordão de Ouro, Beira-mar, Ogum, meu guia, salve Besouro Mangangá, rei da Bahia!”

A nossa 17º edição da Discoteca Básica Brasileira do Século XXI MIS é uma belíssima homenagem de Paulo César Pinheiro ao Mestre dos mestres da capoeira, Besouro Mangangá, e também ao Brasil e ao seu povo que veio da África.

Besouro Mangangá é um personagem que transcende a obra de Paulo César Pinheiro. É como se Besouro tivesse percorrido toda trajetória de Paulinho desde sua meninice, que descobriu a existência do capoeirista, morto em 1924, no livro Mar Morto” (1936), de Jorge Amado. Besouro é descrito como “o mais valente dos negros do cais”.

A primeira homenagem de Paulo César Pinheiro a Besouro Mangangá foi em sua primeira composição lançada, “Lapinha”, parceria inaugural com Baden Powell, vencedora da Bienal do Samba, em 1968, na interpretação de Elis Regina com o grupo Os Originais do Samba. Paulinho pegou emprestado frases de tradicionais do samba de roda para compor essa linda canção, que marcava também seu grande encontro com Baden Powell: “Adeus Bahia, zum-zum-zum/ Cordão de ouro/ Eu vou partir porque mataram meu besouro”.

A obsessão de Paulinho pelo capoeirista retornaria em outra parceria com Baden Powell, “Besouro Mangangá”, 1972, e em uma composição com João Nogueira, “Besouro da Bahia, lançada em 1982, após Paulinho ter passado algum tempo em Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo baiano, estudando a vida de Besouro.

Essa influência que é transportada por toda a vida e obra de Paulo César Pinheiro desembocou no grande musical “Besouro Cordão de Ouro”, em 2006, vencedor do Prêmio Shell de Teatro nas categorias melhor música e direção musical e é o ponto inicial da construção desse disco.

O lançamento se deu pelo selo Quitanda (Biscoito Fino), de Maria Bethânia, natural também de Santo Amaro, e produzido por Luciana Rabello. Começando pela arte do disco, “Capoeira de Besouro” já é maravilhoso. A belíssimo capa e encarte são repletas de ilustrações em xilogravuras de Ciro Fernandes. Um raro capricho em uma época em que se discutia o quanto o CD estava se tornando descartável.

E como Paulinho disse no “Depoimentos para Posteridade”, que concedeu este ano ao MIS: “Eu não gosto de fazer uma música. Eu gosto de fazer uma obra. Eu quero destrinchar aquela alma até secar tudo“. O compositor já tinha feito ao lado do baiano Edil Pacheco, o disco “Afros e Afoxés da Bahia”, cada faixa homenageando um bloco afro e de afoxé. Aqui, Paulinho repete a ousadia.

São 14 canções inéditas cantadas e escritas exclusivamente por Paulo César Pinheiro, cada uma feita para um toque diferente de capoeira, além do samba de roda Lapinha no final. Para tal feito, ele recebe os berimbaus de Mestre Camisa e Victor Lobisomem, dois dos grandes mestres do instrumento, cada um de uma geração, que construíram uma força rítmica primorosa.

Já Maurício Carrilho traduziu para a linguagem violonística os toques de berimbau, um trabalho cuidadoso e magistral, acompanhado do cavaquinho precioso de Luciana Rabello e os excelentes Celsinho Silva, no pandeiro e Paulinho Dias, na percussão.

Citada no início do texto, a música “Toque de Amazonas” é um hino de adoração a Besouro e o toque de Amazonas é usado para saudar os mestres, recepcioná-los, para grandes encontros.

“Mãe África engravidou em Angola/ Partiu de Luanda e de Benguela/ Chegou e pariu a capoeira no chão do Brasil, verde e amarela…”, letra de “Toque de Benguela” é um bom resumo sobre a construção étnica brasileira. O toque de Benguela é mais cadenciado, malicioso, técnico, como próximo toque, o “Jogo de dentro”, que Paulo César Pinheiro ressalta a capoeira de Besouro como uma forma de defesa.

“Se você, camará, entrar eu entro/ Vim aqui pra jogar jogo de dentro/ Eu não temo quem me ataca/ Nem na luta nem no jogo/ Uso braço contra faca/ Perna contra arma de fogo/ Aprendi dessa maneira”

“Toque de São Bento Grande de Angola” é um toque traiçoeiro, utilizado no jogo de Angola, é tocado com o berimbau viola e é cheio de repiques, de gingado. O ritmo cadenciado segue em “Toque de São Bento pequeno”, com o refrão sensacional:

“Camará Capoeira eu sou de fato/ Quando chamam besouro, eu olho e aceno/ Quem quer briga jamais deixo barato/ Já começo com o pé no duodeno/ Com meu Santo aprendi e sou grato/ E ele foi protetor do nazareno/ Hoje protege a mim e eu cumpro trato/ Com respeito a meu São Bento pequeno.”

“Não adianta o armamento pra quem tem medo e covardia, é mão na terra, é pé no vento, vamos tocar Cavalaria…”,  o trecho da música “Toque de cavalaria” dá o sinal da tamanho vigor do mito de Besouro Mangangá, fato que se repete e se comprova no decorrer do disco. A valentia é reforçada em “Toque de Santa Maria”, típico toque relacionado ao jogo de navalha, de grandes peripécias, aqui relacionada em letra de Paulo César Pinheiro que reforça o sincretismo religioso com a história de São Jorge.

Essa relação da umbanda e candomblé com a capoeira continua em “Toque de Barravento”, inspirado no som dos atabaques ouvidos nessas religiões.

“Toque de Iúna” é bem explicada na letra de Paulinho: “é um toque vira amuleto/ Batido na hora oportuna/ Quem disse foi besouro preto/ Puxando o toque de iúna/ Iúna é uma ave espiritual/ Seu canto é a chave desse ritual”.

“Toque de Angola dobrada” e Toque de Angola” são dois ritmos muito comuns na capoeira, clássicos em qualquer roda.

“Contra bota de quem manda, o chicote e a pistola, eu já dei tesoura e banda, rapa, soco, tapa e sola, nunca fujo de demanda e nem de remandiola, tenho sangue de Luanda, venho da nação de Angola”, trecho de “Toque de Angola dobrada” faz nos sentir no meio de uma briga de Besouro no começo do século XX.

“Toque de Idalina” é outro ritmo propício ao jogo da navalha, fato citado por Paulinho na letra. O trabalho segue com “Jogo de fora”, com letra explícita sobre o jogo “Eu quero ver quem fica/ Eu quero ver quem sai/ Eu quero ver quem pula/ Eu quero ver quem cai…”

“Toque de Tico-Tico” fala sobre a perseguição feita pela elite e polícia sobre a capoeira nesse período: “Capoeira escondido eu pratico/ Me tira daqui, tico-tico/ Pra lutar com feitor e milico/ Me tira daqui, tico-tico”.

Para fechar o trabalho, “Samba de roda” é uma homenagem com trechos que formam “Lapinha”, primeira música da relação entre Paulo César Pinheiro e Besouro. O refrão, que tem sua composição atribuída a Besouro, é um dos mais famosos do samba e perfeito para finalizar esse trabalho maravilhoso.

“Quando eu morrer, me enterrem na Lapinha / Calça-culote paletó almofadinha”.

O disco foi indicado ao Grammy e venceu as categorias de Melhor Álbum Regional e Melhor Projeto Visual no Prêmio da Música Brasileira.”Capoeira de Besouro” é um trabalho para além da noção de séculos. É um disco primoroso feito para toda nossa história. Ouça:

Ficha Técnica:

Paulo Cesar Pinheiro: voz
Mestre Camisa: berimbau gunga
Victor Lobisomem: berimbau viola
Maurício Carrilho: violão
Luciana Rabello: cavaquinho
Celsinho Silva: pandeiro
Paulinho Dias: percussão
Ana Rabello, Amelia Rabello, Luciana Rabello, Alan Rocha, Celsinho Silva, Jayme Vignoli, Leonardo Pereira e Paulinho Dias: coro

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