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O Violão de Catullo

23 de outubro de 2013


 

Houve época, pelo menos aqui no Brasil, em que o violão era considerado coisa de boêmios, desocupados e malandros… Porém, não havia artifício mais eficaz de se enviar mensagens de amor a uma jovem donzela, trancada em casa por seus pais severos, do que o pretendente cantá-las lá da rua, acompanhado do famigerado instrumento… Esses momentos recebiam o nome de serenatas. E se fossem realizadas em noite de luar, isso não garantia o coração da moça, mas, pelo menos, dava um encanto todo especial à empreitada.

Em meados da década de 1880, certo menino resolveu fugir de sua casa, à Rua São Clemente, em Botafogo, e se esconder no sertão de Copacabana, sob o abrigo de um preto velho. O pai, descobrindo-lhe o paradeiro, vai atrás do fujão. E no reencontro dos dois, Amâncio José pega o motivo de tudo aquilo e o faz em pedaços, mas na cabeça do filho! Bons tempos aqueles em que um jovem desaparecia de casa para tocar violão…

Esse menino se transformaria numa das figuras mais importantes e rocambolescas da música popular brasileira. Chamava-se Catullo da Paixão Cearense. Nascido em São Luís do Maranhão, em 31 de janeiro de 1866 (mas a data que ficou na história foi 8 de outubro de 1863), passou a infância em Maranguape, no Ceará, e aqui no Rio, então capital do Império, chegou com aproximadamente doze anos.

Catullo virou poeta, o mais popular de seu tempo. E entre suas paixões destacou-se a de versar tanto melodias consagradas como as de autores pouco conhecidos. Ele fazia isso sem consultar ninguém. Os autores, quase sempre, só ficavam sabendo da “parceria” quando ouviam alguém cantando suas melodias com uma letra… Coisas do Catullo…

Contudo, justiça seja feita ao poeta, qualquer música que recebesse os versos de Catullo alcançava redobrada popularidade e, até, a imortalidade. E para se ter ideia da fama de Catullo, seu livro Cancioneiro popular de modinhas brasileiras, de 1899 a 1909, chegou a 50 edições. Se pensarmos que comumente uma edição correspondia a mil exemplares…

Catullo era vaidoso. Ou melhor: o mais vaidoso dos poetas populares… E, como tal, não podia continuar admitindo que seu “pinho”, tão importante veículo de divulgação de sua arte, ainda mantivesse a fama de instrumento de gente desqualificada… Mas como reverter tudo isso?

Em 5 de julho de 1908, com a presença de ilustres personalidades do Rio, numa lista que ia dos maestros Francisco Braga e Henrique Oswald até o médico e sanitarista Oswaldo Cruz, Catullo apresentou-se cantando e acompanhando-se ao violão no templo sagrado da música clássica: o Instituto Nacional de Música (depois Escola de Música da UFRJ), à Rua Luís de Camões (hoje, no mesmo prédio, encontra-se o Centro de Arte Helio Oiticica). Na época, o diretor era o maestro Alberto Nepomuceno, que, mesmo permitindo o recital, não teve coragem de comparecer. Porém, telefonava o tempo todo para saber como andavam as coisas…

E o violão começou, finalmente, a ganhar respeito. Em maio de 1914, a convite de Nair de Teffé, esposa do então Presidente Hermes da Fonseca, Catullo apresentou-se no Palácio do Catete. Meses depois, aos 26 de outubro, a própria Nair, orientada pelo poeta, interpreta, ao violão, em recepção oficial no mesmo palácio, o “Corta-jaca” (“O gaúcho”), de Chiquinha Gonzaga, protagonizando, assim, escândalo de repercussão nacional… Bons tempos aqueles…

É possível que o violão usado por Catullo, tanto no Instituto quanto no Palácio, ou pelo menos em um desses eventos, seja o mesmo que faz parte da Coleção MIS, uma das 24 coleções do museu, a que reúne as doações esparsas ou eventuais. O instrumento guardado pela instituição (e que se parece muito com esse que acompanha o poeta na imagem) deve ter tido, realmente, alguma importância para o poeta, uma vez que afixou dentro dele um cartão com sua assinatura. Ou seja: Catullo queria diferenciá-lo dos outros tantos que teve na vida… Eu mesmo tive a oportunidade de conhecer outros três violões de Catullo e nenhum com cartãozinho.

Catullo morreu de causas naturais, em 10 de maio de 1946. Tinha 80 anos (ou 82). Deixou 30 livros publicados e uma lista de 200 canções, aproximadamente, com obras da própria lavra ou participação dele nas melodias de outros. Cerca de dez mil pessoas, muitas cantando em coro o “Luar de Sertão” (Catullo e João Pernambuco), acompanharam o féretro do poeta até o Cemitério de São Francisco de Paula, no Catumbi. O jovem Luiz Mendes narrou o enterro para os ouvintes da Rádio Globo.

Em 2007, o ator José Mayer, visitando a Sala de Pesquisas do MIS, sede Lapa, na companhia da tetra-neta do poeta, Irene Siqueira Campos, ao ser informado da existência do violão, pediu para vê-lo e, se fosse possível, segurá-lo. Queria sentir a “energia” do velho menestrel. Mayer, tempos depois, com grande sucesso de público, interpretou o personagem título da única peça escrita por Catullo: “Um boêmio no céu”.

 

Luiz Antônio de Almeida
Chefe da Sala de Pesquisas
Pesquisador da Música Brasileira

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