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O HOMEM, POR JOYCE MORENO

19 de maio de 2016


 

O Homem está procurando música. Com esta senha, dez entre dez compositores se assanharam naquele ano de 1969: o Homem era nada mais, nada menos que o músico brasileiro mais famoso do momento, que tinha estourado mundialmente três anos antes e agora vendia milhares de cópias com seu grupo. O sonho de todo o mundo era ter uma música gravada por ele. Boatos rolavam: ele te obriga a editar com ele, depois paga mal, Fulano e Fulano já passaram por isso, etc, etc. O pessoal falava mal, mas no fundo, todos estavam doidinhos para entrar como personagens nesta história, até para poderem reclamar depois, o que seria chiquérrimo.

Edu e Dori foram convidados pessoalmente pelo Homem para uma audição no apartamento que ele alugara em Ipanema, durante sua temporada carioca. Fui junto: amicíssimos, tínhamos uma espécie de turma (no meu caso, uma das minhas várias) que se reunia com freqüencia nas casas de um ou de outro, ou em finais de semana em Cabo Frio. Cada um conhecia as últimas músicas de cada outro, de modo que a minha presença no encontro servia, para meus amigos, como uma espécie de reforço vocal. Para mim, antes de mais nada, matava a curiosidade de muitos anos a respeito de um mito de adolescência. Ficava imaginando como seria a figura, que os dois já conheciam muito bem, e de quem colecionavam estranhas histórias. Além do que, eu teria mais um caso pra contar nas minhas outras turmas, como a do pessoal mais da minha idade, que não tinha ainda acesso a essas coisas.

O endereço era um apartamento cinematográfico na Vieira Souto, alugado de alguma socialite. Passamos por várias salas imensas, e finalmente chegamos a uma um pouco menor, que seria certamente a sala de música. A pessoa que nos atendeu mandou que esperássemos, e como esperamos! Talvez me falhe a memória, mas não me lembro de ter tomado um copo dágua naquela noite. Foi uma espera longa e seca; por sorte, vínhamos da casa de Dori.

Finalmente o anfitrião chegou, acompanhado da esposa. Estávamos todos – umas cinco ou seis pessoas – amontoados num sofá, nós e um violão.

O dono da casa deu um boa-noite formal e se acomodou numa poltrona antiga em forma de trono, `a nossa frente. Calçava chinelas turcas, fumava de piteira, como a lagarta de Alice. Era uma situação bizarra. Eu me sentia desconfortável, estava ali por acaso. O Homem acendeu um cigarro (que para mim, parecia narguilê) e perguntou, com ar blasé :

– Então, o que vocês têm aí de novo?

Dori olhou em volta, deu o primeiro acorde, e no mesmo instante, feito mágica, a cumplicidade se estabeleceu, distribuíram-se as vozes, e atacamos todos, obedecendo ao nosso maestro: Sá Mariquinha, o seu gato deu/ vinte e cinco bimbadinhas no rabo do meu…

Silêncio constrangedor. Boa noite, e fomos embora `as gargalhadas. Só revi o Homem mais de vinte anos depois, no Japão. Acho que ele não lembrou que eu fazia parte daquele vocal do Dori, ainda bem.

Trecho publicado no livro de pequenas memórias, ‘Fotografei Você na Minha Rolleiflex’, de Joyce Moreno

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