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O baú de Jacob do Bandolim

09 de abril de 2014


 

Desde as primeiras formações instrumentais compostas por flauta, cavaquinho e violão, foi um hábito comum entre solistas registrar, em cadernos manuscritos, as melodias dos choros que tocavam nas festas e bailes familiares, muito frequentes no Rio de Janeiro da segunda metade do século XIX e início do século XX. Podemos constatar esse fato no livro de memórias do carteiro e chorão Alexandre Gonçalves Pinto, O choro: reminiscências dos chorões antigos (Rio de Janeiro: Tip. Glória, 1936):

“Carlos Furtado era especialista nas músicas de Callado, Silveira, Luizinho e do trombonista Candinho Silva, cujas composições acham-se no caderno de muitos flautistas da atualidade […] Gedeão, sublime artista musical, possuía em seu caderno de música composições de diversos flautistas, que também já se foram e de seus contemporâneos […] Quem conheceu João Sampaio pode gloriar-se, pois foi um flauta de peso, conhecia música de verdade e tinha diversos cadernos de choro.[…] Benedicto, outro bom flauta, escreveu algumas composições boas, que devem estar por aí desprezadas, e que talvez no caderno de Cabral, se achem algumas.”

Ao longo dos anos, a reunião desse material, passado de geração em geração, resultou na criação dos primeiros arquivos musicais, como nos conta ainda A.G. Pinto:

“Alfredo Vianna, deixou ele um grande arquivo de músicas antigas e modernas que deve achar-se em poder de seu filho Pixinguinha […] Poucos flautas tinham o gosto do Cabral. Tinha verdadeira adoração pela nossa música e tinha um arquivo que, afirmo que muito poucos possuem não só em número como em beleza.”

A respeitabilidade de Jacob do Bandolim, na sua constante busca pela preservação do choro, fez que vários chorões antigos confiassem a ele seus arquivos musicais. Segundo depoimento do escritor e pesquisador Humberto Franceschi, que conheceu pessoalmente o filho de Alexandre Gonçalves Pinto, o cavaquinista Xandico lhe revelou que foi desejo de G. Pinto que os cadernos manuscritos que tinha guardados em um baú fossem entregues a Jacob do Bandolim depois de sua morte. Esse fato também foi confirmado por D. Cleusa, filha de Xandico, em entrevista feita por mim e pelo bandolinista e pesquisador Pedro Aragão, em 2002.

A coleção de 35 cadernos

O principal interesse desta coleção de 35 cadernos manuscritos reside no fato de o conjunto das partituras constituir uma amostragem do repertório executado por chorões ao longo de oito décadas, sobretudo na cidade do Rio de Janeiro. As exceções são os seis cadernos da família Caiuby, da cidade de Itu/SP, sendo um deles o mais antigo, com data de 1887, e um caderno de música religiosa sem indicação de localização.

Quase todos os músicos-copistas foram identificados como figuras emblemáticas do choro: Quintiliano Gonçalves Pinto, flautista, irmão de Alexandre Gonçalves Pinto, assina quatro cadernos de 1907-1922; Manoel Pedro Nascimento, clarinetista e compositor, assina 13, o maior número de cadernos, de 1945-1966. Segundo depoimento do bandolinista Déo Rian, M. Nascimento era frequentador das rodas de choro do Retiro da Velha Guarda, em Jacarepaguá, reduto de chorões no final da década de 1940 e início da década de 1950, assim como seu filho, o bandolinista e compositor Arlindo Nascimento, que assina um caderno, de 1943-1948; Patrocínio Gomes, bandolinista, autor da famosa polca “Pardal embriagado”, gravada por Jacob, assina a cópia de seis cadernos de 1941-1956; Gustavo Ribeiro, violonista e compositor, foi copista de um caderno para violão solo. De três copistas não temos maiores referências biográficas. São eles: Osório Soares, copista de um caderno para clarinete, Albertino Aguiar “Bisoga”, copista de um caderno autoral para sax-alto, e Jayme Marinho.

Execução do projeto de digitalização

Até 2002, essa coleção de 35 cadernos ainda não havia sido catalogada no MIS, pois se encontrava perdida entre as pastas do arquivo Jacob do Bandolim. Por ocasião do projeto de digitalização das fitas de rolo de Jacob, a primeira parceria entre o MIS-RJ e o IJB, Sergio Prata e Pedro Aragão identificaram o conjunto de cadernos por acaso.

A digitalização dos cadernos teve início em agosto de 2005, sob minha coordenação, como integrante do IJB, e contou com a colaboração dos músicos Pedro Paes, Mauricio Carrilho e Rubens Pereira. Ao final, foram escaneadas 1.585 páginas. Do total de 1.315 músicas, várias que constavam como anônimas ou sem título tiveram seus autores e títulos identificados, graças ao profundo conhecimento do repertório do choro da equipe, que teve ainda como base para pesquisa o banco de dados do projeto “Inventário do Repertório de Choro (1870-1920)”, realizado em 1998 por Mauricio Carrilho e por mim, com o apoio da Fundação Rio-Arte. A entrega oficial dos arquivos digitalizados aconteceu já na atual gestão, em abril de 2009, sendo então vice-presidente Ana de Holanda e diretora técnica operacional Célia Costa.

A coleção Jacob do Bandolim abrigada no MIS conta 10.040 itens, entre registros sonoros, livros, documentos textuais, instrumentos musicais e fotografias. Pertence a ela um riquíssimo arquivo sonoro com cerca de 400 horas de áudio, onde Jacob do Bandolim registrou, em rolos magnéticos, seus saraus, discos de cera, programas de rádio, ensaios, processo de composição, festivais e entrevistas.

Com o objetivo de complementar esta coleção, em 2013 e 2014 o Instituto Jacob do Bandolim, com o patrocínio da Petrobras e da Secretaria Estadual de Cultura do Estado do Rio de Janeiro, vem catalogando e digitalizando o acervo remanescente de Jacob do Bandolim, que se encontrava sob a guarda de sua filha, falecida em agosto de 2011. Até o final do ano serão incorporados ao MIS mais cerca de 1.500 documentos digitalizados, incluindo partituras, manuscritos, cadernos, agenda, recortes de jornal, fotos e discos. Também está previsto um seminário sobre Jacob e um espetáculo comemorativo desta doação, celebrando a frutífera parceria entre o MIS e o IJB.

Por Anna Paes (chefe da sala de pesquisa do MIS-RJ da Praça XV)

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