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NEY MATOGROSSO E PEDRO LUÍS E A PAREDE – VAGABUNDO (2004)

10 de fevereiro de 2017


 

“É  samba que eles querem, eu tenho / É samba que eles querem, lá vai / É samba que eles querem, eu canto/ É samba que eles querem, nada mais”.

E dá-lhe samba! Ou seria um coco? Para fazer “Vagabundo”, trabalho escolhido na nossa 32ª edição da Discoteca Básica Brasileira do Século XXI MIS, Ney Matogrosso foi buscar a força rítmica do grupo Pedro Luís e a Parede (PLAP).

Trouxe a potência do grupo liderado por Pedro Luís para construir o sucessor das homenagens a Cartola, em 2002, e aos grandes compositores dos anos 1930 e 1940, no disco “Batuque”(2001). A relação com Pedro Luís vinha desde “Olhos de Farol” (1998), CD que continha suas músicas “Miséria no Japão” e “Fazê o quê?”.

Agora são cinco faixas assinadas por ele. São elas “Seres Tupy, “Interesse” (parceria com Suely Mesquita), “Noite Severina” (com Lula Queiroga), “Inspiração” (com Gilberto Mendonça Teles), além da criação coletiva “Jesus” (com Gustavo Valente,Lucas de Oliveira, Dado, André Pessoa, Rodrigo Cabelo, Beto Valente).

Do outro lado, versões como “Assim assado”, de João Ricardo, e “Disritmia” de Martinho da Vila são alguns dos clássicos que se misturam na novidade que é “Vagabundo”.

Há de lembrar que entre 2004 e 2005 o show “Vagabundo” rodou o Brasil e foi considerado um dos melhores espetáculos do país. Justíssimo. Ney levava sua presença melódica e a Parede sua potência sonora. Um encontro que fez bem para o trabalho de ambos.

O disco abre com o coco “A ordem é samba”, de Jackson do Pandeiro e Severino Ramos, lançada originalmente em “Cabra da Peste”(1966). Na ocasião do lançamento, Ney explicou a gravação: “Jackson é o primeiro artista pop brasileiro, foi quem apontou tendências diferentes. Ele deve ser sempre reverenciado”.

Do coco sobre samba partimos para a antropofágica “Seres Tupy”, de Pedro Luís, canção lançada em “Astronauta Tupy”(1997), primeiro disco da Parede. Letra belíssima e crítica que diz entre outros versos: “De Porto Alegre ao Acre/ a pobreza só muda o sotaque”.

“Transpiração”, de Alzira Espíndola e Itamar Assumpção, nomes importantes na obra de Ney Matogrosso, é uma  música que já havia sido gravada, mas ainda não havia levado o merecido reconhecimento. A introdução dura da percussão, como a pulsação do coração, dialoga com o violão que parece cantar: “A inspiração vem de onde?”.

Já “Interesse”, de Suely Mesquita e Pedro Luís, explora o universo animal e metafórico:  “O gato acha o rato muito interessante/ a cobra acha o sapo muito interessante/ agradeço/ você não se interessa mais por mim”.

Tão inusitado quanto as canções novas é a regravação de “Assim assado”, João Ricardo, do antológico disco de estreia dos Secos e Molhados, com novos arranjos com grande protagonismo da percussão: surdos, pratos, zabumba dão a cama para as vozes de Pedro Luís e Ney com direito a um solo de guitarra de Ricardo Silveira que nos leva ao rock de décadas anteriores.

O lindo xote “Noite Severina”, de Lula Queiroga e Pedro Luís, um dos destaques do trabalho, mostra o choque da brutalidade e o peso da percussão com a voz de Ney. Encontro belíssimo e refletido na letra: “Corre calma severina noite/ De leve no lençol que te tateia a pele fina/ Pedra sonhando pó na mina/ Pedras sonhando com britadeiras/ Cada ser tem sonhos à sua maneira”.  É som de britadeira, mas também de calmaria.

A colisão continua na faixa-título do CD e revela o compositor Antonio Saraiva, nome de destaque da cena independente carioca, do mesmo núcleo onde saiu Pedro Luís, Arícia Mess, Suely Mesquita. “Vagabundo” é uma canção malandra, ora samba, ora rap, com presságio de dodecafonia alavancado pelo sax do próprio Antonio Saraiva.

A dureza ganha ainda mais potência em “Inspiração”, de Gilberto Mendonça Teles e Pedro Luís, tema falado e pesado: “Pega a palavra, pega e come/ Não interessa se algum nome / Possa te dar indigestão.”

A percussão da Parede abre “Disritmia”, de Martinho da Vila, em arranjo com espaços, silêncio, que vai crescendo ao decorrer da música. Apesar de ser um samba já muito gravado, desde seu lançamento em 1974, aqui ele ganha fôlego e frescor.

Os novos arranjos também surtem efeito em “Napoleão”, da dupla Lulhi e Lucina, faixa antiga do repertório de Ney Matogrosso, lançada em “Sujeito Estranho”(1980), que recebe agora uma leitura ritmada, muito mais próxima ao intuito da canção.

“Tempo afora”, de Fred Martins e Marcelo Diniz, é um daqueles exemplos do papel importante do intérprete em revelar compositores. Desde a década anterior, Ney gravava Fred Martins e “Eu tenho o tempo do mundo/ Tenho o mundo afora” é mais uma brilhante construção do músico de Niterói.

A liberdade de “Tempo afora” é proposta também para Cristo em “Jesus”, criação coletiva do grupo de rock Boato, que Pedro Luís fez parte no começo dos anos 1990: “Jesus, Jesus/ Vamos tirar Jesus da cruz”.

Com sonoridade delicada, “Finalmente” é outra faixa de Alzira Espíndola e Itamar Assumpção, essa também em parceria com Paulo Salles. A calmaria da percussão e violões ganha o aconchego primoroso do sax de Glauco Cerejo em versos ardentes: “Já vem de longe esse desejo perene/ Suco de kiwi escorrendo lentamente”.

O disco encerra com outra releitura ”O Mundo”, de André Abujamra do grupo paulistano Karnak, que saiu no CD como um bônus, e finaliza o trabalho com um pedido de comunhão mundial: “O mundo é pequeno pra caramba/ Todos somos filhos de Deus/ Só não falamos a mesma língua”. Um desejo tão natural e pertinente treze anos depois.

“Vagabundo” é exatamente isso: o passado, revisitado por um repertório de cinco décadas, presente, nas súplicas e desejos, e também indissociável do futuro. É desejo e desejável. O encontro de Ney Matogrosso com a PLAP foi um grande acontecimento nesse século XXI, tanto em disco quanto nos espetáculos. A ordem é “Vagabundo”. Ouça!

Ficha técnica:

Percussão: C. A. Ferrari, Celso Alvim, Sidon Silva e Wilson das Neves.
Glauco Cerejo : Saxofone Soprano
Mário Moura : Baixo Elétrico
Ney Matogrosso : Voz
Pedro Jóia : Violão, alaúde árabe
Pedro Luís : Violão e cavaquinho
Ricardo Silveira : Guitarra

Produção: Universal Music
Direção de produção: João Mário Linhares e Carlos Martau
Direção Musical: Ney Matogrosso
Direção Artística: Max Pierre
Gerente Artístico: Ricardo Moreira
Assistente de Produção: João Paulo Linhares
Gravado: Estúdio Mega por Carlos Martau e Márcio Gama
Mixado: Carlinhos Freitas – Promaster
Assistente de Gravação e mixagem: Guthemberg Pereira e Marcito Vianna
Roadie: Marcos Alves
Direção de arte e design: Patrícia Chueke, Billy Bacon e Ernani Cal
Fotografia: Murillo Meirelles
Coordenação gráfica: Gê Alves Pinto

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