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NEI LOPES – CHUTANDO O BALDE (2009)

04 de novembro de 2016


 

“Chutar o balde é quando a gente/ Está cansado de fazer/ Realizar e acontecer/ Contra a corrente”.

Nei Lopes, nosso grande pensador contra as correntes, abre o disco “Chutando o balde” com uma espécie de rap. Mas acalmem-se, na verdade o rap se transforma em um samba dois por quatro. Nei Lopes acredita que no Brasil existem gêneros, como o coco e a embolada, semelhantes ao rap e acha uma baita colonização supervalorizar o estilo oriundo dos Estados Unidos.

Nossa 19º edição Discoteca Básica Brasileira do Século XXI MIS tem a honra de apresentar “Chutando o balde”, lançado em 2009 pela Fina Flor, com arranjos de Humberto Araújo e Ruy Quaresma, também produtor do CD.

O trabalho é sucessor do premiado “Partido ao cubo, que acabou com qualquer possibilidade de crítica xenófoba sobre o discurso de Nei Lopes, já que é um disco que promovia a ligação da música cubana com o samba. Essa relação retorna agora no samba “Saracuruna-Seropédica”, uma típica crônica de Nei Lopes, que conta o caso espetacular de um ovni, que para roubar sua criatividade, tenta sequestrar grandes partideiros.

“Eu e o Beto Sem-Braço/ Mais compadre Almir Guineto/ Fomos fazer um sanhaço/ Na caxanga do Aniceto/ Que era mais ou menos perto/ Ali de Parada Angélica/ Mas no meio do trajeto/ Houve uma coisa tétrica/ Surgiu no céu um objeto/ Brilhante, de forma esférica”. Só de imaginar essa história já dá um longa metragem.

A direção musical é espetacular e sofisticada com Fernando Merlino (piano), Zé Luiz Maia (baixo), Jorge Gomes (bateria), Ruy Quaresma (violão), Alceu Maia (cavaco), Samara Líbano (Violão de 7 cordas), Marcelinho Moreira e Ovídio de Brito (percussão). Em algumas faixas, os metais típicos das gafieiras cariocas são incorporados sempre com arranjos suingados de Humberto Araújo e Ruy Quaresma.

Além da ligação com Cuba, Nei Lopes reforça sua relação com o samba paulista e traz para a maioria das suas composições os parceiros do Quinteto em Branco e Preto, Magnu Sousá, Everson Pessoa e Maurílio de Oliveira.

Em “Chutando o balde”, o compositor desfila um conjunto de letras bem-humoradas, sarcásticas e mordazes com a tradicional coleção de gírias e citações. Na faixa-título já emenda “Como dizia Seu Aldir da Garibaldi: “Quem não agüenta batidão/ Vai de Vivaldi”, citando o amigo e parceiro Aldir Blanc, morador da rua Garibaldi, na Tijuca. É um trabalho que nos remete ao “Sincopando o breque”, CD lançado em 1999, com crônicas tipicamente cariocas e que celebra o gênero samba-de-breque consagrado por Moreira da Silva.

Em “Samba de fundamento”, uma parceria com Magnu Sousá, Maurílio de Oliveira, Nei traça um breve histórico do samba, um gênero que não pode ser efêmero. “O samba vem de muito longe/ De antes da Praça Onze/ De emoções ancestrais/ Candeia por sinal já dizia/ Que ele é filosofia/ Não é moda fugaz”.

Em”Dicionário”, parceria com Everson Pessoa, Nei Lopes cita alguns dos gêneros musicais mais famosos hoje em dia, mas com a origem exata das palavras na língua portuguesa. “No meu dicionário roqueiro é aquilo/ Que fica lá em cima da rocha/ E fanqueiro é o cara que vende tecido/ De linho e algodão/ Pra mim sertanejo é antes de tudo um forte/ E Axé é força e boa sorte/ No meu dicionário galera é apenas uma embarcação”.  E encerra “Artista é artista e mané é mané”. O mesmo assunto é tratado, mas de outra maneira em “Pala pra trás”, com Magnu Sousá, uma crítica aos falsos sambistas, aqueles que chegam com o boné com a “Pala pra trás”.

“Deusas e Devassas”, parceria com Everson Pessoa, com excelente arranjo de sopros, e parte do refrão de “Mulheres”, de Toninho Geraes, sucesso de Martinho da Vila “Eu também já tive mulheres”, para citar diferentes personagens de mulheres de grandes livros brasileiros.

A discussão tão atual sobre a popularização do Halloween no Brasil é retratada em “Pombajira Halloween” que ironiza gírias e termos estrangeiros. E tudo termina na imagem fantástica de uma pombajira invadindo um Halloween!

“Marafo long neck, curimba em playback/ Ela veio mesmo assim/ Mas quando deram um break/ Ela viu que era fake/ Tudo fashion, tudo teen/ Foi então que a cigana rodou a baiana/ Riscou fogo no estopim/ Pombajira baixou no Halloween”.

O realismo fantástico continua nas próximas faixas, como em “Bugre do milênio”, com Everson Pessoa, em uma história que um tal índio Hugo sai viajando pelo Brasil caindo em várias roubadas. Aqui, como fez com o sentido das palavras na faixa “Dicionário”, Nei Lopes descreve ritmos famosos em alguns lugares do país: “Hugo, deprimido, pelo Rio a vagar/ De repente ouviu um som bem peculiar/ Som contagiante, eletrizantes metais/ Samba com orquestra, balançando os casais/ Bugre Hugo então incandesceu e explodiu/ Só volto pro Xingu depois do ano 3 mil”.

O esperto bugre Hugo dá lugar em “Tira-gosto”, parceria com Ruy Quaresma, para “Dona Delfina, Marquesa de Maringá”, de família fina que adere ao consumo popular e “que já come até gambá”.

O samba-de-breque “Águia de Haia”, com Luís Filipe de Lima, descreve a incorporação do espírito de Ruy Barbosa em um bebum até que “O caboclo Ruy Barbosa de mim desincorporou” e acaba com sua trajetória no direito. Aqui, Nei Lopes parte do samba “Baile no Elite”, grande sucesso em parceria com João Nogueira. “Águia de Haia” é um de seus sambas jurídicos, com vocabulário jurídico e vale lembrar que o compositor é bacharel da Faculdade de Direito Nacional, citada no samba. Os breques da faixa são todos em latim e formam uma obra-prima do gênero.

“Oló” é um samba sobre um amor não correspondido que quase chega em decisões fatais. Nei Lopes explica o significado do título na própria letra: “Oló é abotoar, fechar o paletó”, ou seja, morrer.  É comum dentro da sua trajetória o uso de vocabulário inspirado nas línguas africanas. Nei Lopes, que é autor de diversos livros, escreveu a “Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana” e é reconhecido intelectual sobre oa ssunto.

“Ondina”, com Everson Pessoa, conta a história  de um triângulo amoroso contemporâneo. A baiana Ondina vai para o Rio e se apaixona por Lina, mineira, que foge para Diamantina onde casa com um grande usineiro. Mais um conto fantástico de Nei Lopes.

“Ondina Lançou sucessos de Edil/ Roque, Rufino e outros mais/ Conheceu gente grã-fina/ Em reuniões sociais/ Conheceu Lina, menina/ De grandes dotes vocais/ Poetisa, bailarina/ Sapatilhas triunfais”. Aqui, Nei Lopes cita Edil Pacheco, Roque Ferreira e Nelson Rufino, três dos mais importantes compositores de samba baiano atuais.

Os sopros voltam com todo protagonismo em “Meia cabeleira”, parceria com o salgueirense Luiz Fernando, mais uma canção que tenta “preservar” o estilo do sambista, sem tranças, cabelo alisado e “Sem costeleta, que eu não me chamo Elvis Presley”.

“Recordando Seu Libório”, parceria com Claudio Jorge, é um samba-breque todo estilizado e moderno que conta a história de um sujeito que se mete atrás de uma mulher “que pinta e borda”. A música é inspirada “Seu Libório”, sujeito que tinha três mulheres, grande sucesso de Braguinha e Alberto Ribero, de 1941.

O partido-alto aparece em “Confraria”, com Dauro do Salgueiro, uma típica história do vencedor de loteria que vai comemorar com seus amigos no pagode “Sou eu que pago a despesa!/ Chega mais, meu companheiro/ Que hoje eu tenho dinheiro/ Pra fazer esta franqueza/ Que beleza acabou minha tristeza/ Começou minha alegria/ Acertei no loteria”

E “Chutando o balde” termina com o samba-enredo “Samba emprestado”, uma homenagem à Escola de Samba Quilombo, criada por Candeia, e que Nei Lopes também fazia parte. “Me recorda um tempo bom/ Relembro a minha escola reunida/ Caprichada, colorida/ Toda roxinha e marrom”. Assim como Nei, a Escola de Samba Quilombo também caminhava contra a corrente.

“Chutando o balde” é um disco de histórias, das ruas, de um mundo impossível que só seria possível no Brasil. Nei Lopes é nossa resistência e agradecemos sempre por chutar o balde.

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