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Morre Miltinho, um ícone da divisão rítmica do samba

10 de setembro de 2014


 

O texto a seguir é uma homenagem de Rodrigo Faour, pesquisador musical, jornalista, escritor e produtor, ao falecimento do grande mestre Miltinho

O Brasil perdeu um de seus cantores de voz e divisão rítmica mais originais: Milton Santos de Almeida, o Miltinho, aos 86 anos. Ele nos deixou no último domingo, dia 7, por volta das 16h, no Hospital do Amparo, zona norte do Rio, onde estava internado desde o dia 21 de julho em função de problemas respiratórios, e acabou tendo uma parada cardiorrespiratória. O corpo foi velado nesta segunda no Memorial do Carmo e logo após cremado.

Miltinho dizia sempre que aprendeu a ter tanto ritmo assim “com Deus”. Não teve professores. Desde menino tinha fixação em pandeiro e admirava Silvio Caldas e Frank Sinatra. Nascido numa família de classe média carioca, Miltinho ainda na adolescência, formou o conjunto vocal amador Cancioneiros do Ar, passou depois ao Namorados da Lua, Anjos do Inferno (com o qual atuou por cinco anos no México) e Quatro Ases e um Coringa. A seguir, passou a crooner de orquestras e conjuntos em boates chiques de Copacabana, obtendo desataque no Milionários do Ritmo, de Djalma Ferreira, que abriu a boate Drink, e já a partir de 1957 cunhava LPs de sucesso nos quais o fox “Devaneio” e os sambalanços “Lamento”, “Recado” e Cheiro de Saudade passaram a celebrizá-lo. Em 1960, seu primeiro LP Um Novo Astro estourou o sucesso Mulher de 30, que o levou a ser conhecido por todo o país.

Na primeira metade dos anos 60 viveu o auge de sua carreira, Miltinho colecionando sucessos em ritmo de samba-canção (“Poema do Adeus”,” Poema das Mãos”, “Meu Nome É Ninguém”); sambalanço (“Palhaçada”, “Só Vou de Mulher”) e até boleros, como “Lembranças” – que, segundo ele, permaneceu 28 semanas nas paradas de sucesso, na Venezuela, levando o cantor a viajar muito àquele país e gravar por lá. Entre 1966 e 76, gravou na Odeon 16 álbuns de prestígio, inclusive três antológicos em dueto com Elza Soares (“Elza Miltinho e Samba”) e quatro com Doris Monteiro (“Doris, Miltinho e charme”).

A tão cultuada divisão rítmica de Miltinho não é famosa até hoje à toa. “Sou ritmista. A única particularidade é que canto dois tempos atrasado, a harmonia vai na frente. Você fica com dois tempos para errar. As pessoas não sabem que dois tempos em música é troço que não acaba mais, dá pra escrever uma carta pra casa”, disse, certa vez, com sua ironia habitual. Sim, era brincalhão, fazia piada de tudo, mas foi também um príncipe – pela educação e pelo português muito correto que falava. Percebi isso quando estive mais próximo dele, após ter produzido duas coletâneas com as canções mais expressivas de sua obra das fases RGE e Odeon. Por isso, fui convidado a dirigi-lo e entrevistá-lo no palco em seu show de 80 anos, na Sala Baden Powell (RJ), e tive a honra de ele ter aceito convites meus para cantar na festa de lançamento de meu programa de rádio, e depois no “História sexual da MPB”, do Canal Brasil, sua última aparição em TV, ao lado dos igualmente saudosos Jorge Goulart e Roberto Silva. Na ocasião, cantou e tocou pandeiro com aquele estilo inconfundível. Miltinho nunca nos deixará de todo, pois fez escola. Zeca Pagodinho, um de seus maiores fãs, está aí e não me deixa mentir.

* Artigo também publicado, no Jornal Folha de São Paulo, em 09/09/2014

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