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MÔNICA SALMASO – CORPO DE BAILE (2014)

04 de agosto de 2016


 

Na 6ª edição da Discoteca Básica Brasileira do Século XXI MIS vamos falar de “Corpo de baile”, obra-prima lançada por Mônica Salmaso, em 2014, pela gravadora Biscoito Fino.

Toda loucura contida na música de Guinga – loucura de olho de cego cantador, de pincelada de Van Gogh ou de mistério da literatura de um Julio Cortázar, a quem Mônica Salmaso dedica a gravação – está em “Fim dos tempos”, valsa brasileira que inspirou letra apocalíptica de Paulo César Pinheiro: “Nós somos todos/Todos aflitos/De um lado os doidos/De outro os malditos/Com o fim dos tempos/No coração/E pelos becos, pelas ruas/Pelo mundo andamos sós”. Esta obra-prima que abre “Corpo de baile” recebe de Tiago Costa arranjo camerístico (quarteto de cordas mais baixo acústico, flauta e clarinete, violão conduzindo a harmonia guinguiana) que não apenas soa à Villa-Lobos mas que insere a obra de Guinga na sua estrada natural: a que começa em Villa e vai se transfigurando em Tom Jobim, Edu Lobo, Dori Caymmi até chegar nele, e agora.

O disco de Mônica Salmaso foi o acontecimento artístico mais importante da música brasileira atual – e talvez o título da primeira faixa, “Fim dos tempos”, soe, mais do que crua constatação, como lírica ironia. E é o mais importante por motivos objetivos: a melhor cantora faz seu trabalho mais elaborado (no sentido da densidade das canções e do colorido orquestral), sobre a obra do maior compositor em parceria com o letrista que contém toda a história e toda a estética da música brasileira.

Guinga já salvou a música brasileira uma vez, e em seu pior momento, os anos 1990, quando ressurge em sua parceria com Aldir Blanc tão bem registrada em um punhado de discos produzidos por Paulinho Albuquerque para a gravadora Velas (criada por Ivan Lins e Vitor Martins SÓ para lançar Guinga), e no CD “Catavento e girassol”, da grande Leila Pinheiro. Guinga e Aldir influenciaram tudo que veio depois, a jovem música brasileira e, claro, a própria Mônica.

Ao reunir canções cronologicamente anteriores mas não menos modernas, Mônica promete insuflar novos jovens. Dá aula de música brasileira. Passeia pelo Nordeste pela clave da saudade retirante em “Porto de Araújo” e na celebração da natureza em “Quadrão”; recria (do repertório de Elis Regina) com arranjo grandioso todo novo de Nelson Ayres a densidade do “Bolero de Satã” e lança a leveza da marcha “Rancho das sete cores” (outra obra-prima); vai da moda mais telúrica “Violada” às valsas de influências francesa (“Non sense”) e vienense (“Corpo de baile”). Passa até por um inusitado fado, “Navegante”, e aí é curioso ouvir um formato tão tradicional como que invadido pelas invenções harmônicas de Guinga. Abrange da cultura indígena de “Curimã” (com participação vocal da especialista Marlui Miranda) à católica de “Procissão da padroeira” (com arranjo espetacular de Dori Caymmi, calcado só em violoncelos). Recria o que a dupla faz melhor, canções densas como “Fonte abandonada” e “Noturna” e lança uma modinha inédita, “Sedutora”, na mesma linha e tão boa como a famosa “Senhorinha”.

Como uma Elizeth Cardoso em “Canção do amor demais”, que com Tom e Vinicius relançou a música brasileira para o futuro, Mônica Salmaso acha Guinga e Paulo César Pinheiro em pleno fim dos tempos.

por Hugo Sukman, curador da nova sede do MIS, resenha publicada originalmente em 31/07/2014 no jornal O Globo. 

 

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