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MIS começa a nascer em Copacabana

17 de fevereiro de 2014


Texto de Arnaldo Bloch sobre a nova sede do MIS-RJ

 

Quem passa hoje a pé, de carro ou de ônibus pelo grande canteiro de obras instalado na Avenida Atlântica, Praia de Copacabana, Posto 5, no terreno onde outrora funcionava a boate Help, vê um tapume gigante em degradê que, dependendo do ângulo ou da proximidade, ainda é capaz de esconder o que se passa ali, mas já começa a revelar as arestas e protuberâncias de um esqueleto irregular que, a cada dois ou três dias, assume uma forma diferente. Nas laterais do tapume, ou na visão de quem trafega pela pista da praia na direção Posto 6-Leme, essas formas podem lembrar um piano colorido, uma sanfona ou uma combinação aleatória de peças de Lego, o clássico jogo de montar que sobrevive desde os anos 1950 (quando, por sinal, Copacabana era uma espécie de centro dos sonhos mundiais de glamour e de multiculturalismo avant la lettre).

Se o observador passou por ali com uma frequência, digamos, semanal nos últimos seis meses, esse exame de perspectivas foi capaz de assumir realmente o caráter de um jogo, no qual, à medida do tempo, as mais variadas formas se apresentaram aleatoriamente aos olhos mais atentos e lúdicos, como quadros efêmeros num processo de criação. Essas visões fugitivas jamais se repetirão, e as cores dos diversos materiais da estrutura serão, um dia, cobertas por concreto, fazendo desse jogo de contemplação um passado enterrado numa memória subjetiva, parcial, pela imposição do projeto em sua forma final, inscrita, perene, numa maquete.

Enfim revelada ao público, essa forma, contudo, será tão singular quanto cada uma daquelas imagens resultantes da realização do plano do arquiteto (na verdade, a troika americana responsável pelo projeto) para o novo Museu da Imagem e do Som (MIS). Antes de sua escolha em concurso, alguém, dono de notório saber, observara que o Rio há muito perdeu sua “vontade arquitetônica”: a ousadia, o espanto, a surpresa na criação da malha de edificações da cidade teria parado em 1984, quando foi inaugurado o Sambódromo, exceção feita a um único e virtuoso repique na Cidade das Artes, um ícone do século novo cercado, porém, de acidentes de percurso e pouco visível. O desafio do novo projeto seria criar, no coração de Copacabana e com a centralidade necessária, um novo marco de modernidade capaz de carrear um conceito curatorial obcecado por uma narrativa que espelhe a criatividade carioca como fio condutor da história da cidade, que culmine com o próprio prédio na condição de conteúdo per se.

Para conduzir ao necessário espanto inovatório, os elementos da obra em questão misturam-se numa máquina de incertezas que desafia e surpreende, dia a dia, não só os operários que ali trabalham, mas os encarregados e até André Marino, o engenheiro responsável, funcionário da Fundação Roberto Marinho, que toca o projeto em parceria com o governo do estado:

— Fui enganado. Sou um engenheiro de obras pesadas. Hidrelétricas, siderúrgicas, indústrias de celulose, tudo grosseiro, grotesco. Disseram que era um museu, achei que ia deitar e rolar. Agora só me resta quebrar a cabeça.

Isso pode soar como um problema, e de fato o é. Um problema que se propõe como objeto de desejo e transformação: em vez de um único molde que se repete a cada pavimento (como na acachapante maioria dos prédios verticais, inclusive os mais elegantes da cidade), essa estranha obra necessita de 53 moldes metálicos que só servem para este prédio e para mais lugar nenhum. Alguns moldes são aplicados uma vez só, numa seção singular, única.

Para sequer tangenciar esse processo foram necessários dois anos de limbo. Pois, no princípio, era o caos. Sob os escombros da Help, um solo que parecia abrigar o epicentro da grande tempestade pantanosa profetizada por Rubem Braga em “Ai de ti, Copacabana”: quando se cavava, o terreno tinha uma rigidez que ultrapassava o ponto máximo e possível da escala; mas, quando se enfiava uma estaca, jorrava água até encher o monumental buraco no qual se pretendiam fixar as fundações.

Em alguns momentos, o projeto de uma solução parecia fadado ao fracasso, a ponto de se evocar uma possível “maldição das meninas”, referência ao mulherio dali desalojado com o fim da boate. “Help”!, rogavam arquitetos, engenheiros e peões, em trágica ironia. E assim foi até meses atrás, quando, enfim, a obra mostrou seus primeiros tentáculos, “tortos e aleijados”, como define um dos operários, entre o fascínio e o medo. Só muito recentemente os que ali trabalham puderam vislumbrar os primeiros traços na direção do fim, ou do início: pilares inclinados em V com seções elípticas; vãos livres enormes com pés-direitos altíssimos. E como evitar que tão imprevisível prédio derrube o edifício lateral, que não tem fundações? As rampas externas, expostas, exigem esforços de improvisação que assombram as noites de um velho operário encarregado:

— Só tenho sonhos à noite quando a raiva e o medo de não conseguir me dominam.

Outro descreve a rotina como quem vê a vida: “Nada é fácil. Nem o trivial.” Benedito, conhecido por Baiano, usa material de construção para forjar um triângulo que marca o compasso de um “Samba do MIS”, que vai compondo sem que se lhe solicite tamanha ode.

Dois soldadores cariocas, acostumados a metalúrgicas, explicam que só o improviso permite fixar um pilar inclinado num certo tipo de chapa que exige outra chapa de apoio. Qual o tipo de eletrodo? É possível soldar uma estrutura assim? Possível ou não, é preciso, para, um dia, dizer aos filhos, ou netos, “eu construí isso aqui”, e com eles subir as rampas dobradas que aludem ao calçadão, olhar para o panorama de Copacabana e para a maior obra de arte do mundo, o tal calçadão, “desdobrado”, de Burle Marx. Só visível em sua totalidade, até então, pelo povo capaz de frequentar um terraço de hotel ou uma cobertura residencial. E lá dentro…

Texto de Arnaldo Bloch e foto de Mônica Imbuzeiro para o jornal O Globo (16.02.2014).

Leia mais sobre a nova sede do MIS-RJ em http://www.mis.rj.gov.br/nova-sede/

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