MIS Blog/ Discoteca Básica

MILTON NASCIMENTO – PIETÁ (2002)

13 de janeiro de 2017


 

“Minha mãe quem falou/ Minha voz vem da mulher/ Minha voz veio de lá, de quem me gerou/ Quem explica o cantor/ Quem entende essa voz/ Sem as vozes que ele traz no interior?”

A 28ª edição da Discoteca Básica Brasileira do Século XXI MIS celebra “Pietá”, trabalho gravado por Milton Nascimento, nosso Bituca, em 2002. O disco apresenta três novas cantoras: Simone Guimarães, Marina Machado e, até então, Maria Rita Mariano, filha de Elis Regina e César Camargo Mariano.

“Pietá” é uma enorme declaração de amor à mulher, à sua força, ao seu canto, sua piedade e generosidade. Explicitamente é uma homenagem à Lília, sua mãe, seu amor. É a obra de um artista que soube muito bem chegar no século XXI, após quarenta anos de carreira, abrindo as portas para o novo, para novas vozes.

“Pietá” é biográfico. É a vida de Milton Nascimento entre suas mulheres junto com a descoberta do som e do afeto. Está lá o carinho que Bituca tinha na infância pelas cantoras do rádio e sua primitiva “sanfoninha”, que ele tocava para acompanhar sua mãe cantando. É um disco de memória afetiva, mas também de descobertas, de novos cantos e parceiros. Para os arranjos, Milton preferiu trazer um amigo de longa data, o mesmo que fez “Travessia”, em 1967: Eumir Deodato.

No disco, a Pietá de Michelangelo ganha as cores fortes do barroco mineiro. Ela canta, como todas as mulheres deveriam cantar no universo de Bituca. Gritam a dor, a paixão, o clamor e, como na imagem de Pietá, estende o peito para segurar e amparar o corpo de seu filho.

O disco abre com a espetacular “A Feminina voz do cantor”, parceria com Fernando Brant. Canção autobiográfica em uma homenagem às vozes femininas que construíram seu canto, em especial Elis Regina, Ângela Maria e Lília: “A cidade quer cantar com seu cantor/ Ele vai sempre lembrar/ Da lenha de um fogão/ Das melodias vindo lá do quintal/ As vozes que ele guardou/ As vozes que ele amou/ As vozes que ensinaram: bom é cantar”.

Para completar o teor emotivo da canção, o próprio Milton gravou a sanfona de “A feminina voz do cantor”. Provavelmente uma referência a seu primeiro instrumento, uma “sanfoninha” de apenas 2 baixos.

A primeira participação do disco chega já na segunda faixa, “Casa aberta”, composição de Flávio Henrique e Chico Amaral. Marina Machado não só canta com Milton como traz a referência do candombe do Povo do Açude, na serra do Cipó, local que fica a pouco mais de 100 km de Belo Horizonte. Os dois entoam juntos os nomes das matriarcas, netas de escravos, que mantém essa tradição: “Na casa aberta/ É noite de festa / Dançam Geralda, Helena, Flor/ Na beira do rio/ Escuto Ramiro / Dona Mercês toca tambor”. Os tambores de Minas sempre foram preservados e cantados na música de Bituca. É como um eco tocado entre suas montanhas.

Eco esse que reverbera nos jogos de vozes que introduzem “Beleza e canção”, outra composição em parceria com Fernando Brant, típica canção do universo Bituca. Aqui, ele recebe a cantora Simone Guimarães, a mais experiente entre as três convidadas de “Pietá” e que Milton conhece desde quando ela era criança em Santa Rosa do Viterbo, interior paulista.

E por falar em infância, a próxima participação é de Maria Rita. Antes de partir para o seu mundo musical, Maria Rita faz uma interpretação emotiva ao lado do seu padrinho em “Tristesse”, música de Bituca com Telo Borges. A introdução com violoncelos em uma longa dança com a clarineta e oboé é fantástica. Obra primorosa do arranjo de Eumir Deodato. “Tristesse” nos cobre de ternura com sua melodia sofisticada e generosa.

“Quem sabe isso quer dizer amor”, de Lô e Márcio Borges, é o grande hit de “Pietá”. A música fez parte da trilha sonora da novela “Alma Gêmea”, da Rede Globo, e recebeu Samuel Rosa na guitarra e Lô no violão.

“Imagem e semelhança”, parceria com Bena Lobo, filho de Edu Lobo, e Kiko Continentino, ganha uma sonoridade contemporânea, com Fender Rhodes e arranjos de Continentino que convidam Bituca para os anos 2000. A cantora Marina Machado retorna e canta com Bituca: “Buda, oxalá ou krishna, muito amado/ Nos fizeram andar/ Mas resta a pergunta do começo,/ Tô tanto distante de ter sido feito/ A sua semelhança, pai”.

“A lágrima e o rio”, composição feita com Wilson Lopes e Ricardo Nazar, recebe o órgão Hammond de Eumir Deodato o que vai crescendo junto com o naipe de cordas que nem o caminhar eterno das águas dos rios, em um arranjo magistral de Deodato.

Maria Rita volta em “Voa bicho”, canção de Telo e Márcio Borges, lançada originalmente no antológico disco “Os Borges”, de 1980, que reunia toda essa família musical, incluindo o próprio Bituca, que se considera também um Borges.

“Outro lugar”, música de Elder Costa, jovem mineiro de Pouso Alegre, virou também tema de novela. Com sotaque pop, ela dá espaço para a informal e livre “Às vezes Deus exagera”, do guitarrista baiano Bruno Nunes, que nos deixou em 2014.

O clássico “Cantaloupe Island” de Herbie Hancock aparece em arranjo vocal impressionante feito por Milton Nascimento. Uma das características e paixões, desde os primeiros trabalhos de Bituca, é de gravar diversas camadas de vozes. O próprio Herbie Hancock toca o piano nessa faixa, ao lado do violão de outro astro do jazz, Pat Metheny. Versão fabulosa que funciona como uma reza, um mantra. 

“Pietá”, parceria de Milton com Chico Amaral, é inspirado no amor feminino universal: “Foi piedade quem me amparou/ Foi socorro quem me deu/ Sua mão forte de mulher/ Quando tudo escureceu/ Foi o mundo que me deixou/ Para sempre este travo/ Este cravo, minha paixão/ Que a luz do teu rosto/ Guardo sobre a pedra fria/ Dobras de minha alegria/ Vem me amparar, vem me trazer/A voz que pode me proteger/ És minha mão, és meu querer/ Piedade és toda mulher”.

“Beira-mar novo”, tema tradicional adaptado por Frei Chico e Lira Marques, recebe o grupo teatral Ponto de Partida e os Meninos do Araçuaí, coral infantil da região mineira do Jequitinhonha, para um momento com os tradicionais tambores mineiros. A música precede “Meninos do Araçuaí”, parceria com Telo Borges, em homenagem às crianças que fazem parte deste projeto criado, em 1998, levando música para a formação de jovens cidadãos em uma região com grandes dificuldades de infraestrutura.

Os tambores continuam em “Boa Noite”, outra parceria com Chico Amaral, com participação de Simone Guimarães. Vale ressaltar o trabalho dos percussionistas – Lincoln Cheib, Marco Lobo, Ricardo Cheib e Sérgio Silva.

“Pietá” encerra com “Vozes do vento”, parceria de Milton com Kiko Continentino, que recebe em tom de despedida as três intérpretes femininas do disco, em mais uma homenagem de Bituca à Lília, às mulheres, à Pietá: “Mãe do amor/ Que me ensinou/ Como se canta/ Poesia/ Mãe do amor/ Que me ensinou/ Para viver/ Poesia/ Quero chegar/ Quero partir/ Quero soltar/ Alegria/ Sempre te amar/ Quero valer/ Todos os momentos/ Dessa voz madrinha”.

Ouça “Pietá” e sinta o Brasil em cada melodia e harmonia. É o país atirando-se entre as montanhas, e ouvindo a força da mulher e da mãe música.

Ficha técnica:

Direção Artística: Tom Capone Produzido por Guto Graça Mello, Milton Nascimento e Tom Capone Gravado na Toca do Bandido por Alvaro Alencar, Tom Capone e Tomás Baptista e no Blue Studios por Sérgio Ricardo. Mixado na Toca do Bandido por Alvaro Alencar e Tom Capone Assistentes Toca do Bandido: Tomás Baptista e Fernando Rebelo Assistentes Blue Studios: Alexandre Maurell e Renato César Edição Digital: Vitor Z, Mauro Manzoli e Alexandre Castilho Assistente de Produção Blue Studios: Celso Lessa Arranjo e regência de cordas, metais e instrumentos: Eumir Deodato Masterizado por Ricardo Garcia na Magic Master Direção de percussão: Lincoln Cheib Copista: Flavio Mendes Roadie: Fabricio Ferreira

Produção executiva: Marilene Gondin e Remo Brandalise

“Cantaloupe Island”: produzido por Matt Pierson, gravada por James Farbe no Power Station, NYC. Mixada por Bill Schnee no Schnee Studios, North Hollywood, CA.

Músicos:

Andrea Ernest Dias : Flauta G
Antonella Lima Pareschi : Violino
Carlos Eduardo Hack : Violino
Carlos Prazeres: Violoncelo
Cristiano Alves: Clarineta
David Chew: VIoloncelo
Dirceu Leite : Flauta
Elder Canto: Vozes
Elder Costa: Violão
Eumir Deodato : Regência
Fernando Bru Pesce: Violoncelo
Flávia Rosa: Violoncelo
Francisco de Assis Soares da Silva : Trompa
Frederick Stephany : Viola de Arco
Gastão Villeroy : Contrabaixo
Glauco Fernandes : Violino
Herbie Hancock: Piano
Hugo Pilger: Violoncelo
Jairo Diniz Silva : Viola de Arco
Jesuína Noronha Passaroto : Viola de Arco
Jessé Sadoc: Trompete
João Daltro de Almeida : Violino
Jorge Kundert Ranevsky (Iura) : Violoncelo
José Alves da Silva : Violino
José Ricardo Volker Taboada : Viola de Arco
José Rogério Rosa : Violino
Kiko Continentino : Piano elétrico e arranjos
Léo Fabrício Ortiz : Violino
Lincoln Cheib : Percussão
Lô Borges: Violão
Márcio Eymard Mallard:Violoncelo
Marco Elizeo Mesquita Aquino: Vozes
Marco Lobo : Percussão
Marcus Ribeiro Oliveira: Violoncelo
Mariana Isdebsky Salles : Violino
Michel Bessler : Violino
Murilo Barquette : Flauta
Nelson Oliveira: Trompete
Pablo Bertola: Vozes
Paschoal Perrota : Violino
Paula Vianna Prates Barbato : Violino
Pat Metheny: Violão
Philip Doyle : Trompa
Ricardo Amado : Violino
Ricardo Cheib : Percussão
Ronaldo Silva : Percussão
Samuel Rosa: Guitarra
Sérgio de Jesus: Trambone
Sérgio Silva : Percussão
Telo Borges: Piano
Tom Capone : Programação Eletrônica
Vittor Santos: Trombone
Widor Santiago : Flauta
Wilson Lopes : Viola 10 Cordas, violão, viola caipira

 

 

Pablo Bertola
Marco Marco Elizeo Mesquita Aquino
Elder Costa
Elder Canto

Ponto de Partida: Ana Alice Souza, Ana Carolina Damasceno, Beth Carvalho, Eloiza Mendes, Felipe Salame, João Melo, Lido Loschi, Lourdes Araújo, Pablo Bertola, Regina Bertola, Soraia Moraes.Meninos de Araçuaí: Alexandra de Souza, Carlos Júnior dos Santos, Kátia Santos, Claudirene dos Santos, Cléia da Silva, Cleide Passos, Clésio da Silva, Danilo de Souza, Ednam Santos, Ednéia Santos, Farlei Farias, Gabriela Passos, Gracy Kelly Viana, Graziela Maciel, Jaqueline Viana, Jéferson Alves, Jéssica Alves, João Paulo Oliveira, Marlon Pierre, Marquele Nunes, Marquele Santos, Maxuell Ferreira, Michael de Paula, Nataliana Santos, Nélio Nascimento, Pitágoras Nascimento, Rafael Dourado, Renato Pereira, Rogério da Silva, Ronésia Chaves, Tarcísia Douglas, Yuri Humas.
Coordenadoras Meninos de Araçuaí: Pama Dourado, Narvilme Silva, Vilce Santos e Neusinha Gomes.

PARCEIROS


 

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