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MEU PRETINHO – O SAMBA PERDIDO DE HEITOR DOS PRAZERES

18 de março de 2014


Cabe ao acervo do MIS-RJ mais uma raridade: disco em homenagem a Donga gravado há 82 anos

 

Em 2005, durante a gestão de Edino Krieger, fui indicado pelo Museu da Imagem e do Som a colaborar com o pesquisador Flávio Silva, por dois meses, em um primeiro levantamento dos discos do acervo da extinta Discoteca Pública do Districto Federal, que se encontrava sob a guarda da Biblioteca Pública Estadual.

O acervo da DPDF havia sido doado ao MIS e aguardava o momento oportuno para ser encaminhado à instituição. Flávio acreditava na existência de muitas preciosidades ali contidas, principalmente em discos de acetato. E, realmente, nossas “descobertas” foram significativas.

Antigamente, o único jeito de se produzir registros sonoros era por meio de um mecanismo no qual uma agulha incandescente ia abrindo sulcos sobre cilindros e discos, virgens, e grafando (ou gravando) o que se queria. Os fonógrafos, aparelhos em que se podiam reproduzir cilindros, só resistiram, praticamente, uma década aqui no Brasil, pois, a partir de 1902, quem passou a dominar o mercado foram os gramofones, que tocavam discos.

Havia dois tipos de discos virgens. No começo do século XX, os discos de cera de carnaúba predominavam. Já no final da década de 1930 aparecem no Brasil os discos de acetato, espécie de esmalte preto a base de petróleo que recobria os dois lados de um disco de alumínio.

No período da II Grande Guerra, o alumínio foi redirecionado à fabricação de utensílios e artefatos militares e o preço do metal subiu tanto que começaram a produzir discos de acetato sobre vidro e até papelão. Imaginemos, pois, a fragilidade disso. E, pior, muitas rádios venderam seus discos, com registros de milhares de horas de programação, só pelo retorno financeiro proporcionado pelo alumínio. A Rádio Nacional como, então, pertencia ao governo, não precisou contar com aquela renda, preservando, assim, muita coisa.

As gravações em discos de cera continuaram sendo feitas até meados da década de 1940, quando a matéria-prima, a cera de carnaúba, foi dando lugar ao vinil. A partir de 1958, com a introdução das fitas-rolo no mercado nacional, as gravações em discos de acetato chegaram ao fim. O acetato não permitia a regravação, enquanto as fitas-rolo podiam ser reutilizadas praticamente até o esgotamento de seus elementos magnéticos.

Durante o período do levantamento capitaneado por Flávio Silva, conseguimos separar milhares de discos de 78rpm e LPs por categorias: nacional, estrangeiro, música clássica e música popular. Também separamos discos de acetato com base de alumínio e poucos de vidro e papelão.

Encontramos muitas gravações importantes como a “Protofonia” da ópera “Il Guarany”, de Carlos Gomes, pela Boston Pop’s Orchestra, gravações de Enrico Caruso, o maior tenor de todos os tempos, Bidu Sayão, o soprano lírico ligeiro mais famoso do Brasil, o cantor de tangos Carlos Gardel, em gravações argentinas originais, entre tantas outras preciosidades que se encontram nas muitas páginas do relatório final em artigo que Flávio Silva escreveu para a Revista da Academia Brasileira de Música.

A principal característica da coleção da DPDF, que também agregava parte da discoteca da Rádio Roquette-Pinto, era o repertório de música clássica. Por isso, não saberia explicar a presença de discos de artistas populares como o próprio Gardel ou Silvio Caldas, Carmen Miranda e Ademilde Fonseca… Certamente, doações de ouvintes…

Dois anos depois, já na gestão de Rosa Maria Araújo, o MIS finalmente recebeu o acervo da Discoteca Pública do Districto Federal. Fui encarregado pela então vice-presidente Ana de Hollanda de outro levantamento, um breve crivo, para não deixar que nada importante passasse despercebido.

Dessa vez, sozinho, reencontrei os discos do Caruso, da Bidu, do Gardel e mais algumas preciosidades que já nem me lembrava mais, entre as quais um curioso disco gravado de um lado só, com anotações feitas a lápis no lugar do selo e com os seguintes dizeres: “Meu Pretinho – Heitor dos Prazeres”.

O fato de ser gravado somente de um lado me fez concluir que se tratava de uma “prova”, gravação não comercial, feita como teste para aprovação pelo diretor artístico da gravadora. Tinha, portanto, em minhas mãos, o registro único de um samba que levava a assinatura de Heitor dos Prazeres e que nem Heitor dos Prazeres Filho, o “Heitorzinho”, procurado por mim, jamais ouvira falar.

Restava identificar a intérprete. Quem seria a cantora e quem conseguiria identifica-la?

Entrei em contato, primeiramente, com o meu amigo e pesquisador Humberto Franceschi, que também não soube dizer quem era, mas, pelo número da matriz, 131.149, adiantou que a gravadora era a Parlophon, que o disco seria de 1931, aproximadamente, e que duas cantoras gravaram discos com matrizes próximas: Zaíra de Oliveira e Ruth Franklin.

Como a filha de Zaíra, a pesquisadora Lygia Santos, é pessoa muito próxima ao MIS, já tendo sido vice-presidente da instituição, a convidamos para vir à Sala de Pesquisas da sede Lapa reconhecer a voz da mãe. Na primeira audição, Lygia foi categórica: “Essa voz não é de minha mãe!”.

Foi um balde de água fria… Só restaria, a partir daí, ouvir alguma gravação de Ruth Franklin para fazer a comparação…

Porém, antes de me dar por vencido, tive a ideia de tocar para Lygia, ao mesmo tempo, as gravações de “Meu Pretinho” e de “Lua culpada”, outra canção gravada por Zaíra. E na comparação das duas vozes, já não sabíamos mais quem era uma e quem era a outra… A mesma extensão das notas graves e agudas, o mesmo cacoete lírico, os mesmos “rr” dobrados… As vozes eram praticamente idênticas. Lygia, então, reconheceu na intérprete de “Meu Pretinho” a voz da saudosa mãe.

Recentemente, quando resolvi escrever sobre esse episódio procurei, antes de publicar, uma segunda e última opinião na ajuda de figuras muito especiais na área de pesquisa musical: Marcelo Bonavides, Miguel Ângelo de Azevedo, o Nirez, e Luiz Américo Lisboa. De Nirez, com a intermediação de Bonavides, obtive a relação das gravações Parlophon entre os números 131.140 e 131.160, na qual, ao lado do número 131.149, exatamente o número da matriz de “Meu Pretinho”, se lê: “Sem identificação”.

Por fim, Luiz Américo, ligando da Bahia, colocou pra eu ouvir uma gravação da Ruth Franklin. Pude, desse modo, me certificar de que era Zaíra de Oliveira a intérprete de “Meu Pretinho”. A voz e o jeito de cantar da Ruth eram bem diferentes daqueles da intérprete do samba perdido de Heitor dos Prazeres.

É impressionante a trajetória de “Meu Pretinho”, certamente uma homenagem ao glorioso Donga, Ernesto dos Santos, esposo de Zaíra de Oliveira e pai de Lygia Santos… Esse samba inédito, completamente esquecido, chega a todos nós, 86 anos depois, graças ao compromisso do nosso MIS em preservar e divulgar a memória da Música Popular Brasileira.

Fico feliz por participar desse momento…

Luiz Antonio de Almeida
Chefe da Sala de Pesquisas
Pesquisador da Música Brasileira

 

 

Luiz Antônio de Almeida
Chefe da Sala de Pesquisas
Pesquisador da Música Brasileira

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