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MEMÓRIAS DO MAESTRO EDUARDO SOUTO

08 de outubro de 2014


 

Aos 18 de maio de 1977, o Museu da Imagem e do Som registrou depoimento dedicado à memória do pianista e compositor Eduardo Souto, com as presenças de Nelson Souto (filho do músico), Almirante, Braguinha, Sérgio Cabral, Aloysio de Alencar Pinto e João Vicente Salgueiro, então diretor da instituição. E, para enriquecer ainda mais o depoimento, foram agregados, posteriormente, mais três preciosíssimos relatos a respeito do maestro nas vozes de Lamartine Babo (gravação feita em casa da pianista Neusa França), Silvio Caldas (entrevistado por Sérgio Cabral) e Francisco Mignone (entrevistado por Nelson Souto).

Souto nasceu em São Vicente, cidade do litoral paulista, aos 14 de abril de 1882, e faleceu no Rio de Janeiro, em 18 de agosto de 1942, aos 59 anos. Por volta dos onze anos, veio morar com a família em Niterói e mais tarde, já adulto, começou a trabalhar como bancário, enquanto, paralelamente, desenvolvia atividades de regente de pequenas orquestras, como a do Cinema São José, à Praça Tiradentes, e de um coro de amadores do qual surgiria o soprano lírico brasileiro mais famoso de todos os tempos: Bidu Sayão.

Em 1919 (e não 1920, conforme algumas publicações), Souto inaugurou à Rua Gonçalves Dias, nº 75 a Casa Carlos Gomes, importante estabelecimento de vendas e edições de partituras e instrumentos musicais. Inclusive, foi ele, por volta dessa época, que praticamente descobriu e orientou, nos seus primeiros passos pelo mundo artístico, o compositor Lamartine Babo. Souto, com o suporte de sua casa de música, tornou-se grande fomentador do carnaval de rua, patrocinando, inclusive, um dos blocos mais populares da cidade, o “Tatu Subiu no Pau”, mesmo nome de uma de suas composições de mais sucesso.

Em 1920, por indicação do Palácio do Catete, foi o responsável oficial por toda a parte musical da visita dos reis da Bélgica, Alberto I e Elizabete. Para ilustrar o presente artigo, selecionei, do acervo da instituição, uma das duas fotografias em que aparece o grupo de músicos arregimentado pelo maestro que protagonizaria um dos episódios mais pitorescos de toda a real estadia. Procurei identificar quem aparece na imagem. Mas, infelizmente, daquelas vinte pessoas, só consegui reconhecer duas: com alguma certeza Eduardo Souto e seu amigo e também editor Lino José Barbosa.

Alberto I gostava de fazer escaladas. Ele morreria 14 anos mais tarde em acidente nas montanhas das Ardenas, entre a Bélgica e Luxemburgo. Impressionado pela beleza da Serra dos Órgãos, resolveu conhecer a região embarcando, pouco tempo depois, em um trem que ligava o Rio a Teresópolis. Na metade do caminho, desceu em um acampamento montado especialmente para ele, de onde, na manhã seguinte, iniciaria caminhada até os maciços.

Souto, então, procurou fazer uma surpresa ao rei. Escondeu seus músicos pela mata, para que, ao amanhecer, Alberto I fosse despertado ao som da “Alvorada”, interlúdio da ópera Lo Schiavo, de Carlos Gomes, sob sua regência. Acredito que a versão apresentada por Souto tenha iniciado a partir do meio da obra, no exato momento em que o trompete imita a corneta dos quartéis na hora do toque do alvorecer…

Se o evento, que ainda teria contado com participação de Pixinguinha e os Batutas (eles não aparecem na fotografia), realizado no meio da floresta e com músicos e maestro metidos atrás de moitas, alcançou pleno êxito, não faço a mínima ideia…

Do depoimento ao MIS, que teve duração de hora e meia, subdividido, após digitalização, em 16 faixas, selecionei para os nossos leitores, exatamente, aquele em que Almirante fala com Nelson Souto a respeito desse evento tão curioso. Também separei uma faixa dos depoimentos de Lamartine, Silvio Caldas e Mignone.

Em 1923, o endereço da famosa Casa Carlos Gomes, talvez na ocasião a mais popular casa de música da cidade, era outro: Rua do Ouvidor, nº 153. Em 1929, o alemão Robert Donati, antigo sócio de Souto, aparece como único proprietário do estabelecimento.

Em 1931, encontramos Souto como diretor artístico da gravadora Odeon-Parlophon, época em que se tornou incentivador de artistas como Noel Rosa (a quem apresentou Vadico), Braguinha, Almirante, Jonjoca, Silvio Caldas e Mario de Azevedo, entre outros. Entre suas composições de maior sucesso destacam-se “O despertar da montanha”, “Do sorriso da mulher nasceram as flores”, Saudade”, “Paraty dançante”e “Um baile no Catumby”.

Na célebre gravação de Noel do samba “Com que roupa?”, de 1930, é a voz do maestro Souto que no finalzinho diz: “ – Vai de roupa velha e tutu, seu trouxa…”

Para encerrar esse artigo, aviso aos interessados que no MIS se encontram partituras, fotografias, registros fonográficos e a batuta do maestro Souto, doação da família.

 

Luiz Antonio de Almeida

Chefe da Sala de Pesquisas

Pesquisador da Música Brasileira

 

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