MIS Blog/

MART’NÁLIA – PÉ DO MEU SAMBA (2002)

09 de dezembro de 2016


 

“Pé do meu samba/ Chão do meu terreiro/ Mão do meu carinho/ Glória em meu outeiro/ Tudo para o coração/ De um brasileiro.”

Nossa 23º edição da Discoteca Básica Brasileira do Século XXI MIS relembra “Pé do meu samba”, terceiro disco de Mart’nália, o primeiro do século XXI.

Diferente dos outros trabalhos que a cantora e compositora fez, “Mart’nália”(1987) e “Minha cara” (1998), neste disco ela mostra grande personalidade, além de ser um prenúncio do seu sucesso.

Produzido por Celso Fonseca e cercado por bons músicos, como Jorjão Barreto nos teclados, Arthur Maia no baixo e Ramiro Mussoto na percussão, essa maravilha foi dirigida, concebida e supervisionada por Caetano Veloso, grande fã da então promissora artista.

O disco já abre mexendo nas normas. Em “Filosofia”, de Noel Rosa e André Filho, música lançada por Mário Reis em 1932, tudo é costurado com um belo arranjo de Celso Fonseca. Nos primeiros minutos você pensa num samba tocado exclusivamente com percussão com ênfase nas palmas, uma das forças motrizes das rodas de samba. Na parte “B”, quando a letra fala do “outro”, aparece o violão muito delicado de Celso Fonseca, com notas longas e preciosas. No final, ainda tem um elemento surpresa quando entra o sintetizador e mostra que “Pé do meu samba” seria um legítimo samba do século XXI.

“É água fresca para aliviar/ Meu coração que secou”, em “Novos tempos”, de Cláudio Jorge, Mart’nália refresca as aflições da vida com um samba moderno e um forte apelo do piano elétrico de Jorjão Barreto no refrão, lembrando seus tempos de Banda Black in Rio, além do baixo potente de Arthur Maia. Vale lembrar que Cláudio Jorge e Mart’nália fizeram parte do Batacotô, grupo que também influencia este trabalho da cantora.

“Samba é tudo”, de Celso Fonseca e Ronaldo Bastos, traz um bom recado para discussões em tempos de dúvidas sobre o centenário do samba: “Diz que tudo é samba/ Samba é tudo o que Donga abençoou”, e completa perfeitamente com olhos no Estácio: “O valor dá-se a quem tem/ Ismael foi nosso professor/ Samba raro é samba em paz/ E quem faz não diz que tem valor”.

“Mulata no sapateado”, de Ary Barroso e Vinicius de Moraes, sucesso com Ângela Maria, tem uma percussão toda editada, nos remetendo a uma programação eletrônica. Trabalho exato do percussionista argentino Ramiro Mussoto, morto em 2009, conhecido pela técnica e edições.

“Tempo feliz”, de Baden Powell e Vinicius de Moraes, traz Mart’nália cantando um momento mais saudosista e apaixonado do disco “Feliz o tempo que passou, passou/ Tempo tão cheio de recordações/ Tantas canções ele deixou, deixou/ Trazendo paz a tantos corações”. Esse sentimento continua em “De amor ou paz”, de Luiz Carlos Paraná e Adauto Santos, lançada por Elza Soares no Festival da Record de 1966, do famoso empate entre “A banda” e “Disparada”, agora um pouco mais melancólico: “Já que se tem que sofrer/ Seja dor só de amor/ Já que se tem que morrer/ Seja mais por amor”.

“Viajando”, do pai Martinho da Vila, e “Poema do adeus”, de Luiz Antonio, conclui a dor do amor que passou. Se na primeira música Mart’nália canta: “Com saudades me lembrando/ Vou sempre amando você/ Me lembrando, me lembrando…/ Vou Sempre amando você…”.

No samba “Poema do adeus”, Mart’nália conta com uma formação que lembra a sonoridade do Conjunto Época de Ouro: “Então, eu fiz um bem, dos males ,que passei/ Fiz do amor uma saudade de você/ E nunca mais amei, deixei nos olhos seus/ Meu último olhar e ao bem do amor eu disse adeus”.

O diretor do disco, Caetano Veloso, aparece na faixa-título que descreve alguns templos do samba e da cultura da nossa cidade: “Você é a Festa da Penha/ A Feira de São Cristóvão/ É a Pedra do Sal/ Você é a Intrépida Trupe/ A Lona de Guadalupe/ Você é o Leme e o Pontal”, na primeira parte e termina na segunda parte: “Você é o Buraco Quente/ A Casa da Mãe Joana/ Você é Vila Isabel/ Você é o Largo Do/ Estácio/ Curva de Copacabana/ Tudo o que o Rio me deu!”. A canção entrou para a trilha sonora da novela América, da Rede Globo, e virou um dos símbolos da carreira de Mart’nália.

Já em “Meiga presença”, de Paulo Valdez, filho de Elizeth Cardoso, e Otávio de Morais, a canção é totalmente reconstruída por Celso Fonseca, passeia por um legítimo rhythm blues à lá George Benson, mas com sotaque brasileiríssimo.

“Beco” é o primeiro tema assinado por Mart’nália, em que divide a composição com Mombaça, seu grande parceiro. Um tema pop com sabor de ijexá preenchido por baterias eletrônicas.

O hino “Molambo”, de Meira e Augusto Mesquita, outra canção do universo Elizeth Cardoso, mas também gravado por artistas como Maysa, Cauby Peixoto, ganha aqui um arranjo minimalista, com sintetizadores na abertura e com o detalhe bonito do som de uma kalimba, feita pelo próprio Celso Fonseca. A música termina como uma viagem mântrica, a percussão vai se afastando como se fosse uma escola de samba ou um bloco passando.

“Chega” é a segunda parceria de Mart’nália e Mombaça, outro sucesso do disco, tem uma sonoridade que Mart’nália cunhou na carreira, com forte identidade. Samba bom para cantar em plenos pulmões. Ela recebe as participações de Cláudio Jorge, violão, e Ivan Machado, baixo elétrico.

“Per omnia saecula saeculorum amen”, um raro samba com nome em latim de Miguel Gustavo, lançado em 1960 pela cantora Carminha Mascarenhas, encerra o disco com uma percussão que caminha para um tema religioso, com uma letra que nos lembra de nossos tempos atuais: “Tudo igual/ Não muda nunca/ E eu no meio desta gente/ Procurando compreender/ E sem saber o que fazer/ O que fazer? Que fazer?/ Não tem nada que fazer.”

O que fazer? o que fazer? Em “Pé do meu samba”, Mart’nália mostrou que tinha luz própria e deixou claro o quanto cresceria nesse século XXI. Após esse trabalho, foram inúmeros CDs e DVDS e a consolidação da sua obra. Mas celebramos “Pé do meu samba” como um marco de sua carreira e, é claro, também para nosso centenário samba.

Você pode ouvir esse trabalho completo aqui: “Pé do meu samba” (2002).

Ou acessar algumas versões abaixo:

Ficha técnica:

Direção: Caetano Veloso
Produção e arranjo: Celso Fonseca
Arthur Maia : baixo elétrico
Jorjão Barreto : piano elétrico
Ramiro Musotto: percussão e edição
Gravação, edição e mixagem: Renato Aisher
Masterização: Ricardo Garcia / Magic Master
Gravações Adicionais: Celso Fonseca
Assistente de gravação e produção: Thiago Braga
Super Pretas são: Analimar, Ana Costa, Mara Nazareth e Mart’nália.
Ovídio Brito: percussão
Paulinho da Aba: percussão
Alceu Pery : vocal
Mara Nazareth : vocal
Nina Pancevsky : vocal

PARCEIROS


 

Sede Administrativa
Rua Visconde de Maranguape, 15
Largo da Lapa, CEP 20021-390
Rio de Janeiro/ RJ

Sede Praça XV
Praça Luiz Souza Dantas, 01
Praça XV, Rio de Janeiro/ RJ
Rio de Janeiro/ RJ, Brasil

Tel +55 21 2332-9509/ 2332-9507 (Lapa)
Tel +55 21 2332-9068 (Praça XV)
Email: ola@mis.rj.gov.br

©

2017 MIS–RJ
Termos de uso/ FAQ
design ps.2