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MARIO ADNET E ZÉ NOGUEIRA – OURO NEGRO (2001)

06 de janeiro de 2017


 

A nossa 27º edição da Discoteca Básica Brasileira do Século XXI MIS apresenta o tributo a Moacir Santos, uma belíssima homenagem dos músicos e arranjadores Zé Nogueira e Mario Adnet.

A importância de “Ouro Negro”, lançado em 2001, é enorme para uma geração que não estava habituada ao seu nome. É inegável que após essa celebração, centenas de músicos e pesquisadores, nascidos após a mudança de Moacir para Los Angeles, em 1967, começaram a trilhar o caminho traçado pelo maestro.

Moacir Santos nasceu em Flores do Pajeú, no interior de Pernambuco, em julho de 1926, o mesmo ano em que vieram ao mundo Miles Davis, John Coltrane, Ray Brown, Melba Liston e o cubano Enrique Jorrín, criador do cha-cha-cha.

O jovem menino passou por algumas cidades do interior pernambucano, foi para o Recife, João Pessoa, tocou em inúmeras bandas de rua, até chegar ao Rio de Janeiro. Nos bailes, desvendou e sucedeu a sonoridade traçada pelas antológicas orquestras de Severino Araújo e Zaccarias. No rádio, Moacir Santos foi o primeiro maestro negro da Rádio Nacional, quebrando a hegemonia italiana dos mestres Radamés Gnatalli, Leo Peracchi e Lyrio Panicalli. Fez o tradicional caminho do instrumentista, entre as décadas de 1940 e 1960, passou pelas bandas da cidade, bailes até chegar ao rádio, a grande vedete da época.

No começo dos anos 1960, Moacir Santos fez arranjos e regência para inúmeros trabalhos, como “Elizeth canta Vinicius”(1963); “Vinicius & Odette Lara”(1963) – o 1º LP da gravadora Elenco – ; o musical “Pobre Menina Rica”(1964), com composições de Carlos Lyra e Vinicius de Moraes. Foi autor também das  trilhas sonoras “Seara Vermelha”, do italiano Alberto D’Aversa (1963), “Os Fuzis”, de Ruy Guerra, “O Beijo”, de Flavio Tambellini e “Ganza Zumba”, de Cacá Diegues, todos esses de 1964. Ganga Zumba, de Cacá Diegues, ainda foi responsável por trazer algumas músicas do clássico “Coisas”(1965) – “Coisa n.º 4”, “Coisa n.º5/ Nanã” e “Coisa n.º9”.

“Coisas” foi lançado pela Forma, em 1965, selo que o produtor carioca Roberto Quartin sustentou por três anos na década de 1960, a mais audaciosa e sofisticada das gravadoras surgidas no país. A cruzada de Zé Nogueira e Mario Adnet começava aí.

O pequeno catálogo da Forma foi adquirido no início dos anos 1970 pela Phillips, que depois virou Phonogram, até virar a atual Universal. Durante anos, a gravadora pouco fez com esse catálogo e, para piorar, desapareceram as partituras originais do LP “Coisas”.

Durante cerca de quatro meses Zé Nogueira e Mario Adnet se dedicaram à transcrever de ouvido, a partir de uma cópia da master do disco, os arranjos das dez músicas para regravá-las neste trabalho.

No texto que acompanha o relançamento do LP “Coisas”, em 2013 pela Polysom, Mario Adnet falou sobre o assunto: “Lembro bem das muitas conversas telefônicas com Moacir, especialmente no caso de Coisa n.º3, em que pedi a ele que me explicasse o que acontecia com o ritmo complexo daquela coisa. Ficávamos horas ao telefone e ele não me entregava nada mastigado. Com sua experiência de professor me induzia a descobrir sozinho. Quando retornei dizendo que tinha solucionado o problema ele ria da minha aflição e dizia: – “ma rapaz, é isso, ritmo 3” citando um dos capítulos de sua apostila “Ritmos MS”.

Foi dessa maneira que Moacir Santos tratou o seu tributo, com rigor, mas cheio de paixão e alegria. Após sofrer um AVC, em 1995, ele não estava mais tocando, e o início do século XXI para o maestro foi de grande redenção em seu país, após quase 40 anos morando nos Estados Unidos.

“Ouro Negro” abre com “Coisa n.º5” ou “Nanã”, como ficou conhecida após receber a letra de Mario Telles. Aqui, a mais famosa das “coisas” é executada como na versão original. Tema que mostra como Moacir Santos lidava com a influência das nossas tradições afro-brasileiras e que ecoa em trabalhos atuais, como a Orkestra Rumpilezz do maestro Letieres Leite.

“Suk cha” foi lançada originalmente no álbum “Saudade”, pela Blue Note em 1974, e faz parte dos três grandes trabalhos lançados por Moacir na antológica gravadora americana, junto com “Maestro”(1972) e “Carnival of the Spirits”(1975). Foi o grande pianista Horace Silver, também da Blue Note, que em visita ao Brasil ficou impressionado com a melodia de “Nanã”, uma das pontes decisivas para a mudança de nosso maestro.

“Coisa n.º6”, com palmas marcando o tempo e em ritmo de bailes que vão do baião ao cha-cha-cha, ganhou letra de Geraldo Vandré posteriormente e virou “Dia de festa”. Vale o destaque para o solo de trompete de Jessé Sadoc.

A primeira participação do disco é de Milton Nascimento em “Coisa n.º8”, com letra de Regina Werneck. Bituca que sabe muito bem os “Desvios e bifurcações/ Da proa desta embarcação” e faz uma aparição magistral. O tema com apenas três notas foi inspirado em “Vem morena”(1950), de Luiz Gonzaga e Zé Dantas.

“Amphibious”, do disco “Saudade”, já havia sido gravada por Zé Nogueira em seu CD “Disfarça e Chora”, de 1995.”Amphibious” tem uma coleção de lindos solos e um arranjo de sopro impressionate.

“Mãe Iracema”, lançada em “The Maestro”, tem um belíssimo solo de guitarra de Ricardo Silveira, que faz jus a gravação original feita por Joe Pass.

A faixa seguinte é um dos temas favoritos dos instrumentistas, “Coisa n.º 1”. Ela ganhou versões fantásticas via violão de Baden Powell, o pistonista Formiga e o baterista Edison Machado.

“Sou eu” é o samba “Luanne”, com letra de Nei Lopes, que escreve o texto do encarte de “Ouro Negro”. “Se um clarão lilás te banhar de luz/ Não te acanhes, não!/ Sou eu/ Pois teu anjo bom/ Teu Ogum Mejê/ Teu Alabedé/ Sou eu, sou eu, sou eu”. Tudo isso na voz de Djavan.

“Blueishmen”, toda desenhada pelo piano de Cristóvão Bastos em uma das belezas vindas de “The Maestro”, abre as portas para “Kathy”, de “Saudade”, e “Kamba”, do disco “Carnival of the Spirits”. Uma sonoridade “blue note”, mas sem esquecer o Beco das Garrafas, os bailes, Flores do Pajeú.

“Coisa n.º9” foi feita para o filme “Ganga Zumba”(1964), para a cena de um encontro entre dois amantes. Música fantástica, o suprassumo das nossas melodias.

“Orfeu (Quiet carnival)”, do LP “Carnival of the Spirits”, mas agora com letra de Nei Lopes, abre em ritmo de escola de samba para receber Ed Motta, outro grande entusiasta do maestro e responsável por sua valorização nesse século XXI. Moacir Santos é uma influência para Ed Motta em seus trabalhos como “Dwitza”(2002) e “Aystelum”(2005). Tema repleto de repetições, em que Moacir muda as notas no final de cada frase.

“Amalgamation”, tema posterior de Moacir Santos, traz no título um dos termos que o maestro gostava de falar em suas aulas, é como se ele desejasse que a música amalgamasse diferentes universos sonoros.

“Coisa n.º7” abre o segundo CD com sons de vocalize para a entrada a seguir da bela “Coisa n.º2″, uma introdução casada entre o piano e a guitarra. Tema com forte influência do spiritual jazz, obra esplendorosa.

As duas próximas músicas vieram do”The Maestro”. “Lamento astral” é repleta de assaltos rítmicos, contrapontos incríveis, melodia fantástica, uma típica obra de Moacir Santos que ainda conta com um solo de sax espetacular de Marcelo Martins. Já “April Child” ganhou letra de Nei Lopes e virou “Maracatu, nação do amor” com participação de Gilberto Gil: “O amor é rei/ Nosso rei bantu/ Sua voz é lei/ No maracatu”.

“Coisa n.º4” é a canção que abre originalmente o disco “Coisas”. Uma sinfonia negra que Moacir Santos mesmo definiu: “Foi como imaginei os negros fugindo das senzalas. A melodia, com as notas longas, significa a esperança.” Depois temos “Coisa n.10”, como na sequência original.

A linda melodia de “Jequié” foi lançada primeiramente no disco “Luiz Claudio Entre Nós”(1966) do cantor e compositor Luiz Claudio. O tema é bucólico e saudoso e lembra uma viagem que Moacir Santos fez para sua cidade natal e passou por Jequié.

“What’s my name”, do disco “Saudade”, virou “Oduduá”, recebeu a participação especial de João Bosco e ganhou nova letra de Nei Lopes, uma referência ao orixá da origem, da criação. “Diz, Oduduá, quem sou eu?/ Pra onde vou? De onde vim?/ Quem me fez voar tantos céus/ Navegar, tanto assim?”

“Coisa n.º3”, a derradeira “coisas” de “Ouro Negro”, foi feita por Moacir Santos ao ouvir um barulho de ambulância em um filme. Dá para notar muito bem o exercício que ele fez sobre as possibilidade sonoras vindas de um som de uma sirene.

Abrindo com o som do berimbau, na mais tradicional capoeira”, “Anon”, de “Carnival of the Spirits”, foi inspirada em um marchinha de carnaval que Moacir Santos ouviu na infância.

“Quermesse” foi feita na época em que Moacir Santos tocava na Rádio Nacional e galgava um lugar entre o famoso time de maestros. Na época, estudando com o professor Koellreuter, Moacir Santos escreveu a melodia para trompa e apresentou no famoso programa da rádio “Quando os Maestros se Encontram”. Já nos Estados Unidos, o maestro reescreveu o tema trazendo para os ares das quermesses que aconteciam na infância em sua cidade natal.

“De repente, estou feliz”, de “Saudade” tem a participação especial dos vocais de Joyce e João Donato, que também gravou o piano. Uma dedicatória feita por Moacir à Cleonice, sua esposa: “Vou amar você até sem fim/ Deus foi quem mandou você pra mim/ Bem não foi demais o que eu fiz/ Pra você cair do céu e me fazer muito feliz.”

E para encerrar, seguimos com “Maracatucutê” e “Bodas de prata dourada”, essa última feita em 1988 para comemorar os quarenta anos de casados. Moacir Santos e Cleonice ficaram cinquenta e quatro anos juntos, até a morte do maestro em 2006. Aqui, ele mesmo canta ao lado de Sheila Smith e Muiza Adnet, entre vocalizes em uma declaração de amor sutil.

Com emoção, olhos cheios de lágrimas, chegamos ao fim de “Ouro Negro”, um marco da nossa discografia. Mario Adnet e Zé Nogueira trouxeram para o século XXI um universo cheio de magias do século anterior.

Moacir Santos, que foi aluno de Guerra-Peixe, Koellreuter, entre outros, deixou uma geração de músicos, alunos e seguidores, entre eles: Paulo Moura, Sérgio Mendes, João Donato, Raul de Souza, Dom Um Romão, Bola Sete, Roberto Menescal, Chiquito Braga, Nara Leão, Dori Caymmi e tantos outros que incluem ele como um de nossos grandes pilares da música brasileira.

É como sentir que a nossa música está seguindo seus rumos traçados há milhares de anos, entre índios, negros, europeus. É como se a navegação tivesse rota garantida e eterna, “Ouro Negro” é uma escola completa para o futuro.

Obrigado, Mario e Zé, pelo empenho e dedicação em mais de uma década estudando nosso grande maestro.

Ficha técnica:

Djavan, Ed Motta, Gilberto Gil, Jão Bosco, Milton Nascimento, Joyce (vocais); Hugo Vargas Pilger (cello); Paulo Sérgio Santos (clarinete); Juliano Barbosa (fagote); Phillip Doyle, Phillip Doyle (flugelhorn); Vitor Santos (trombone); Gilberto Oliveira, Gilberto Oliveira (trombone); Marcos Nimrichter (piano, teclados); Jorge Helder, Zeca Assumpçao (baixo acústico); Bororo (guitarra elétrica e acústica); Duda Mello (palmas); Joao Donato (vocais, piano)Sheila Smith, Muiza Adnet (vocais); Mario Adnet (violão, palmas); Ricardo Silveira (guitarra); Andréa Earnest Dias (flauta e flautim); Teco Cardoso (flauta, sax-barítono); Nailor Proveta (clarinete, sax-alto); Zé Nogueira (sax-soprano); Marcelo Martins (sax-tenor); Jessé Sadoc (trompete, flugelhorn); Cristóvao Bastos (piano); Jota Moraes (vibrafone); Jurim Moreira (bateria); Armando Marçal (percussão, palmas).

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