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MARIA RITA – MARIA RITA (2003)

20 de janeiro de 2017


 

“A banda toca/ Parece magia/ E é pura beleza/ E essa música sente/ E parece que a gente/ Se enrola, corrente/ E tão de repente você tem a mim…”

A 29ª edição da Discoteca Básica Brasileira do Século XXI MIS apresenta o primeiro disco de Maria Rita Mariano. É preciso registrar o Mariano, já que as influências são evidentes tanto da mãe Elis Regina, quanto do pai César Camargo Mariano, espetacular músico e arranjador.

A base do disco foi gravada ao vivo com um trio como eixo central: Tiago Costa(piano), Fábio Sá (contrabaixo), Marcelo da Costa (bateria), mesma formação do antológico “Sambalanço Trio” de César Camargo Mariano. Vale ressaltar, que o trio piano, baixo e bateria também era algo fortemente ligado à carreira de Elis. A produção e boa parte dos arranjos ficaram com Tom Capone.

Outro ponto importante que Maria Rita trouxe lição de casa foi a capacidade de lançar compositores, fato muito comum na carreira de Elis Regina. Aqui, Maria Rita amplia a força de Marcelo Camelo para além do universo dos Los Hermanos.

O trabalho abre com “A festa”, um presente especial de Milton Nascimento que no último dia de sua turnê “Pietá” no Canecão, em 2003, tirou do bolso um pedacinho de papel escrito à mão onde estava a “A Festa” e entregou para Maria Rita. Bituca é o padrinho musical de Maria Rita, já que a cantora praticamente estreou no álbum “Pietá” com grandes interpretações. Na gravação em si, há espaço para a percussão de Léo Leobons e a delicadeza do banjo e violinha de Tom Capone.  A canção foi é uma adaptação de “La Bamba”, de Ritchie Valens, uma das qualidades de Milton, que trabalha dentro de um tema central e vai desenvolvendo uma música diferente.

“Agora só falta você”, sucesso com Rita Lee com Luis Carlini, de 1975, ainda em sua fase Tutti Frutti, é executada apenas com o trio base de piano, baixo e bateria, levando o hino rockeiro para dentro dos salões.

“Menininha do portão”, de Nonato Buzar e Paulinho Tapajós, é um achado que Maria Rita fez dentro do repertório de Wilson Simonal, artista que quase foi parceiro de Elis no programa “Dois na Bossa”, na TV Record, substituído à altura pelo grande Jair Rodrigues. “Menininha sai do portão/ Vem também brincar/ Vem pra roda/ Me dê a mão”, é um hit infanto-malandro, típico da era “Alegria, Alegria” de Simonal.

“Não vale a pena”, dos paulistanos Jean Garfunkel e Paulo Garfunkel, de 1994, é outra boa sacada do disco. Arranjo fenomenal com participação do trombonista Bocato, que também acompanhou Elis Regina no final da carreira. Vale destacar que uma das principais qualidades do intérprete é de encontrar preciosidades, e aqui Maria Rita mostra que tem faro como “pesquisadora” de canções.

E por falar em repertório, “Dos gardenias”, composição da cubana Isolina Carrillo, feita em 1947, marca um grande momento de Maria Rita como cantora. Versão destacada entre tantas outras que existem pelo mundo.

“Cara valente” é a primeira música de Marcelo Camelo nesse CD e um dos maiores sucessos até hoje da cantora. O arranjo marca o encontro do trombone de Bocato, a percussão de Da Lua, e o baixo de Marcelo Mariano, irmão de Maria Rita. “Cara valente” invadiu o verão de 2004 e estava na ponta da língua de todos e bradava “Ê! Ê!/ Ele não é de nada/ Oiá!/ Essa cara amarrada/ É só!/ Um jeito de viver na pior”.

“Santa chuva” é outra inédita de Marcelo Camelo. O piano nos remete à introdução de “Girassol da cor do seu cabelo”, de Lô e Márcio Borges, do histórico “Clube da Esquina”. A dramaticidade da canção é brilhantemente atingida no ápice em:  “Não há porque chorar/ Por um amor que já morreu/ Deixa pra lá/ Eu vou, adeus/ Meu coração já se cansou de falsidade”. Fantástico!

A Minas Gerais volta ecoar em “Menina da lua”, do mineiro Renato Motha, de 1992. Maria Rita reforça o vínculo com a tradicional música brasileira.

O campo mineiro continua com “Encontros e despedidas”, de Milton Nascimento e Fernando Brant, lançada em 1981 por Simone. Diferente da possibilidade de ser uma versão cansada, já que é uma música muitas vezes gravada, Maria Rita deu novos ares para a canção, com uma belíssima interpretação. “Encontros e despedidas” foi tema de abertura da novela “Senhora do Destino”, de 2004.

“Pagu”, parceria de Rita Lee e Zélia Duncan, é uma homenagem à Pagu, grande heroína brasileira, que foi casada com Oswald de Andrade, mas também é um tributo para todas mulheres: ” Nem toda feiticeira é corcunda/ Nem toda brasileira é bunda/ Meu peito não é de silicone/ Sou mais macho/ Que muito homem”.

“Lavadeira do Rio”, de Bráulio Tavares e Lenine, lançado em 1998, tem na introdução o berimbau de Da Lua junto com o piano de Tiago Costa. Aqui, o coco “Lavadeira do Rio” é se desdobrado em outras possibilidades estéticas.

“Veja meu bem”, a terceira e última composição de Marcelo Camelo no álbum, essa lançada no importante “Bloco do Eu Sozinho”, traz a sonoridade que o grupo Los Hermanos levou para esse século XXI, um samba lacônico, sútil, com detalhes amargos.

O blues “Cupido”, de Cláudio Lins, filho de Ivan e Lucinha Lins, fecha esse disco de estreia de Maria Rita com gosto de romance e paixão: “Foi só por um segundo/ Todo o tempo do mundo/ E o mundo todo se perdeu/ Ficou só você eu eu”.

Esse é um dos grandes pontos de “Maria Rita” (2003), um CD onde a intérprete soube muito bem dosar versões enxutas com momentos de emoção e dramaticidade. Tem amor, crítica, mas tem também uma jovem cantora que sabe traçar o seu rumo, sem esquecer suas origens e nem negá-las. Olhando à distância, é possível imaginar como deve ser difícil ser artista e ser filha de Elis Regina e César Camargo Mariano, porém Maria Rita conseguiu trilhar seu próprio caminho.

Vencedora de três Grammys Latino, nas categorias de “Artista Revelação”, “Melhor Disco de MPB”, “Artista Revelação” e “Melhor Música” por “A festa”, Maria Rita entrou para o século XXI já consolidada entre os maiores nomes de nosso canto, com um álbum de estreia bem brasileiro, novo, tradicional e irretocável.

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