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LUIZ CARLOS DA VILA – BENZA, DEUS (2004)

06 de julho de 2016


 

“Em tempos de pouca alegria/ Se é pra morrer, morrerá com melodia”.

Esse trecho de “A cigarra e o samba” poderia servir para o momento atual de desilusão em que vivemos, como todo grande samba é capaz de fazer, mas neste caso era um recado de Luiz Carlos da Vila para o câncer que tentava tirá-lo de campo, com o sorriso estampado no rosto e a igreja da Penha ao fundo, região onde cresceu, após nascer em Ramos.

Em nossa segunda edição da Discoteca Básica Brasileira do Século XXI MIS, vamos falar de um artista que atravessou o século XX e rumou para um grande e único trabalho de inéditas no século XXI: “Benza, Deus”, lançado em 2004. Infelizmente o compositor e cantor perderia a batalha contra o câncer quatro anos depois do lançamento deste trabalho.

Luiz Carlos da Vila é um dos grandes do nosso samba, integrante da ala de compositores da Vila de Isabel desde os anos 1970, peça importante do apogeu do Cacique de Ramos e nome onipresente em qualquer roda de samba do país. Em algum momento, qualquer intérprete vai soltar um “De Luiz Carlos da Vila…” aí pode ser “Kizomba, festa da raça”, samba-enredo da Vila Isabel campeã de 1988, “O show tem que continuar”, com Sombrinha e Arlindo Cruz, ou “Coisinha do pai”, de Jorge Aragão e Almir Guineto, que chegou literalmente até a Marte, ou algum samba mais raro, mas nunca menos belo. Luiz Carlos da Vila é da estirpe dos nossos grandes compositores de samba com poesia simples, pura e refinada.

Como um auto-tratamento, “Benza, Deus” espanta a tristeza e defende o amor em 12 faixas com diferentes parceiros. No encarte do CD, dedicado a Martinho da Vila e Dona Ivone Lara, um trecho deixa claro a importância do trabalho: “Meu carinho de agradecimento ao pessoal da Santa Casa de Misericórdia, que  me ajudou a dar um salto mortal e voltar à vida.”

Ouça “Benza, Deus” aqui:

Luiz Carlos da Vila faz em “Benza, Deus” uma ode ao samba, à vida e aos negros, ao celebrar Solano Trindade, poeta, artista e revolucionário, na música “Solano, poeta negro”, parceria com Zé Luiz e Nei Lopes. Claro, o mestre era de um coração enorme e só craques se reuniam ao seu redor.

Este samba é fruto dos encontros destes três parceiros na década de 80, quando curtiam e militavam no G.R.A.N.E.S. Quilombo, núcleo cultural criado por Candeia.

Além das antigas e novas parcerias, um fato importante é o tratamento dado pelo produtor-arranjador do disco, o também compositor e violonista Cláudio Jorge. Ele abre caminhos para Luiz Carlos da Vila chegar logo na primeira música com “Sai pra lá, sai pra lá/ Já bateu o tambor/ Não há mandinga na ginga do nosso amor”, trecho da faixa-título, parceria com Moacyr Luz, que pode servir para a doença, mas também para qualquer situação de amor.
Há de se louvar o trabalhadora da gravadora, Carioca Discos, criada por Claudio Jorge, Paulinho Alburquerque e Guilherme Reis, para levar qualidade artística de primeira linha para discos de samba, sempre com a produção cuidadosa de Paulinho.

Cláudio Jorge faz um assovio na introdução de “Agulha e dedal”, inspirado em um distraído assovio de Luiz Carlos enquanto resolviam questões de estúdio. Pura sensibilidade. Aliás, essa música é feita em parceria inédita com Magno e Maurílio, do grupo paulistano “Quinteto em Branco e Preto”, na época novatos no circuito nacional do samba.

Fato que se repete no belo samba “Universo”, com Riko Dorileo, “Vem pra roda samba” com Bira da Vila”, “Pra conquistar teu coração” com Wanderley Monteiro” e “A luz do axé” com Gilmar Simpatia.

Mas os antigos parceiros também aparecem no disco, como em “Chorando de saudade”, com Mauro Diniz, uma maravilha com Carlinhos 7 cordas e Bira Presidente. Tudo que sonhamos para um samba.

Em “Rara”, homenageia Dona Ivone Lara, abraçado com Nelson Sargento. Nos transmitimos para uma época sem grandes orquestras, conjuntos, e vamos direto a sonoridade da primeira metade do século XX, simples, mas incrivelmente linda. Dirceu Leite toca clarinete e Mauro Diniz faz o cavaquinho. Brilhante!

Wilson das Neves aparece em “Ao nosso amor maior” – ô sorte – e o parceiro Cláudio Jorge, faz e acontece com seus violões, em “Em nome do amor”, samba de quadra, daqueles para decolar, obra-prima de Luiz Carlos na sua vertente principal como letrista, de achar versos, imagens inusitadas alusivas ao amor.

E, como uma pedra preciosa, aparece “Como eu te quero bem”, uma parceria inédita com João Nogueira que estava guardada pronta para despontar em “Benza, Deus”.

“Carinho é bom de se dar e sentir
Estanca a sede da dor
Teu beijo bom de beijar é pra mim
O alimento do amor”

Samba de amor daqueles!

É preciso também citar outros inúmeros personagens importantes desse grande trabalho. Desde os integrantes do excelente Toque de Prima, as cantoras Analimar Ventapani, Dorina, Martnália, Ana Costa e Bianca Calcagni no côro; Tonico Ferreira, Ubirany, Marçalzinho na percussão e Humberto Araújo no sax.

“Benza, Deus” é como Luiz Carlos da Vila, atravessou o século XX e está sacramentado em nossa Discoteca Básica Brasileira do Século XXI.

Ficha técnica:

Carioca Discos
Gravado no Estúdio Discover
Técnico de som: Guilherme Reis e Rodrigo Lopes
Fotografia: Bruno Veiga
Design gráfico: Pablo Moura
Produção: Paulinho Albuquerque

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