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LETIERES LEITE & ORKESTRA RUMPILEZZ (2009)

17 de fevereiro de 2017


 

“A música tem de envolver o ouvinte principalmente pelo ritmo. De couro, madeiras e metais, batucando e chacoalhando com arte e graça; e na frente, na sala, sem essa coisa reducionista de cozinha”, Nei Lopes em coluna para o jornal Estado de S. Paulo, em 2010.

A fala de Nei Lopes, um de nossos maiores escritores, compositores, pesquisadores, representa perfeitamente a sugestão, ou melhor, a provocação do trabalho escolhido para nossa 33ª edição da Discoteca Básica Brasileira do Século XXI MIS – a estreia da Orkestra Rumpilezz, grupo capitaneado pelo maestro Letieres Leite.

O projeto de Letieres Leite é justamente tirar a percussão da “cozinha” e botar na sala de estar. “A percussão é soberana na nossa história”, define o maestro que convida cinco percussionistas, criados nos terreiros baianos, com seus respectivos trajes de gala enquanto o naipe de metal, formado por quinze músicos, usam vestimentas casuais.

A Rumpilezz é de fato uma grande provocação e também local de reflexões. Expande a relação baiana com a música brasileira. Fato compreendido desde sempre, da relação entre portos, da “Pequena África”, zona portuária do Rio de Janeiro, espaço entre a Gamboa, Saúde, onde estavam as tias baianas, e local em que o samba urbano foi criado com nomes como Heitor dos Prazeres, João da Baiana, Donga, Pixinguinha. Institucionalmente, essa história é marcada com o primeiro samba “Pelo telefone”, de Donga e Mauro de Almeida, e interpretada justamente por Bahiano, pioneiro cantor do início de nossas gravações na Casa Edison e nascido em Santo Amaro da Purificação, região do Recôncavo baiano, o lugar mais negro e resistente daquele estado.

A Orkestra Rumpilezz nasce dentro desse caldeirão histórico com diversos músicos que ficavam na “cozinha” da indústria do axé music. O próprio Letieres Leite foi arranjador do grupo de Ivete Sangalo por mais de 10 anos. O grupo surgiu em 2006, em Salvador, mas a história de Letieres Leite se iniciou antes, no período em que acompanhou Paulo Moura no Festival de Montreux e Jazz Zurich, em 1992, época em que o grande saxofonista e clarinetista se aprofundava no universo baiano e africano com o tributo a Dorival Caymmi com o grupo Ociladocê, formado pelos percussionistas Jovi, Carlos Negreiros e Marcos Suzano.

E se passaram muitos anos para Letieres Leite promover uma das maiores catarses recentes da música instrumental brasileira, com diversos prêmios, celebrado por artistas como Ed Motta e jornalistas em geral. Podemos dizer que a Orkestra Rumpilezz mantém nossa tradição desde a Orquestra Afro-brasileira, grupo formado na década de 1940, liderado por quase trinta anos por Abigail Moura, até o álbum “Coisas” de Moacir Santos, em 1965. Letieres Leite dá sequência ao misturar o ritmo afro-brasileiro com o jazz e a música instrumental. Daí surge o nome da orquestra: os atabaques “rumpi” e “lé”, mais os “zz” de jazz = Rumpilezz.

O disco, homônimo ao grupo, foi gravado no Teatro Castro Alves e mixado em Nova Iorque, no estúdio Legacy por Joe Ferla. São oito faixas de autoria de Letieres Leite e “Bandeloah”, de Ed Motta.

A faixa de abertura é “A grande mãe”, música que abria e fechava os shows da turnê, uma canção feita para a entidade feminina a partir do toque vassi (usado para chamar divindades de acordo com batida do atabaque rum).

“Anunciação” é dedicada ao baterista e percussionista Antonio Ferreira da Annunciação, músico baiano que tocou em peças de Augusto Boal, participou do filme “A idade da Terra” (1980), de Glauber Rocha, e de discos como “A música livre de Hermeto Pascoal”. Foi segundo Letieres Leite um dos pioneiros do encontro da percussão baiana com o jazz.

Um dos termos mais utilizados no candomblé é “Aláfia”, nome dado para o próximo tema que parece soprar a celebração pela paz e positividade. No jogo de búzios, o ifá, quando se fala “Aláfia” significa caminhos abertos em iorubá.

Uma das principais faixas desse primeiro trabalho da Orkestra Rumpilezz é “Floresta azul”, tema inspirado numa cantiga a Odé, na tradição afro-brasileira. Música longa com quase dez minutos, onde as variações do rum dão a rítmica para a maioria da melodia.

O samba-reggae difundido mundialmente pelo Olodum, ritmo forjado pelas mãos de Neguinho do Samba e Mestre Jackson, ganha homenagem aqui em “Taboão”.

“Balendoah”, de Ed Motta, é a única composição que não é de Letieres Leite. Ed Motta é uma espécie de padrinho da Orkestra Rumpilezz, responsável por difundir o grupo logo no início. A canção foi lançada no álbum “Aystelum”(2005), disco também celebrado na Discoteca Básica Brasileira do Século XXI MIS. 

“Adupé Fafá” é uma homenagem a Fabrício Scaldaferri, percussinionista morto em 2007 e que fez parte da primeira formação da Orkestra Rumpilezz. Adupé Fafá significa “obrigado Fafá” em iorubá.

“O samba nasceu na Bahia” apresenta diversas formas de samba tocados no estado e também é uma referência direta ao samba difundido pelo Ilê Aiyê. Tem samba duro, refletido no atual pagode baiano, kabila de angola e a chula do Recôncavo baiano. Mais do que uma provocação, a música assinala esses ritmos e influências que vão desaguar na zona portuária carioca, local onde o samba urbano é definido.

O disco de estreia da Orkestra Rumpilezz fecha com “Temporal”, primeira composição feita para o projeto, baseado no ritmo ilú (toque para Iansã nas cerimônias da nação Ketu).

Letieres Leite & Orkestra Rumpilezz mostrou para o país caminhos antes pouco celebrados pela música brasileira e colocou a percussão no pedestal. Após esse primeiro trabalho, diversos outros projetos surgiram se guiando dentro desse universo percussivo.

A Grande Mãe precisa ser reverenciada e sem esse papo de cozinha, como já decretou nosso herói Nei Lopes.

 

Ficha técnica: 

Percussão
Gabi Guedes
Kainã do Jeje
Ricardo Braga
Ícaro Sá
Jaime Nascimento

Naipe sax
André Becker: sax alto, flauta
Rodrigo Mendonça: sax alto, flauta
Rowney Scott: sax tenor, soprano, flauta
Leonardo Rocha: sax alto, tenor, flauta

Naipe trompete
João Teoria: trompete
Guiga Scott: trompete
Gilberto Junior: trompete
Joatan Nascimento: trompete

Naipe trombone
Hugo Santos
Gilmar Chaves
Vanilson Lemos

Graves
Junior Maceió: sax barítono
Fernando Rocha: tuba
Adailson Rodrigues: trombone baixo

 

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