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Milton Gonçalves em Depoimento para a Posteridade

23 de janeiro de 2014


 

O ator de 80 anos esteve no Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro nessa quarta-feira, dia 22, pronto para entrar para a história ao ser imortalizado pela série “Depoimentos para a posteridade”. Na sede da instituição na Praça XV, Milton foi entrevistado por Benedito Sérgio (presidente do Instituto de Pesquisas das Culturas Negras), Jorge Gama (advogado) e Maurício Gonçalves (ator). Abaixo estão alguns trechos do depoimento do ator.

“Minha infância foi num cafezal em Monte Santo de Minas (MG), onde trabalhei desde os 6 anos na quitanda de um português. Ele foi o único homem que deu um tapa na minha orelha. Minha mãe ficou tão possessa que pegou uma faca e foi lá ameaça-lo.”

“Não sei como aprendi a ler e a escrever, mas aos 6 anos eu lembro de já escrever bilhetes. Não sei como; acho que tinha alguma habilidade. Isso nós já estávamos em São Paulo, morando de favor na casa da minha avó, em busca de uma vida melhor. Nessa época minha mãe me estimulava a ir ao cinema, porque ela sabia que era lá que eu vivia minhas aventuras. Aquele era meu mundo.”

“A primeira vez que fui ao teatro, tinha uns 7 ou 8 anos e trabalhava para um judeu chamado Leonel Cogan. Pessoa muito boa. Acho que foi por causa dele que eu sempre fui muito ligado à comunidade judaica, porque eles me respeitavam. Ele me disse que tinha dois ingressos para ir ao teatro, coisa que eu não sabia o que era. Chamei um amigo da rua e nos arrumamos com terno e gravata para ver o espetáculo ‘A mão do macaco’, na Praça da República. Fiquei maravilhado. Era um universo mágico pra mim. Minha estreia foi dez anos depois numa peça para adultos no Braz, onde eu interpretava um preto velho.”

“’A cada um de acordo com a sua necessidade.’ Foi o que eu aprendi em 1945 quando trabalhava numa livraria que também servia como um aparelho (ponto de encontro dos chamado comunistas, na ditadura). Nunca me envolvi com eles, mas todos me ensinaram muito. Me davam livros que eu devorava.”

“Minha técnica para atuar sempre foi a de Stanislavski. E ler Stanislavski é pouco, você precisa usá-lo. Em TV, procuro construir um personagem antes para quando estiver gravando relembrá-lo. Cada um precisa ser destrinchado para ser construído.”

“Gravamos Macunaíma na Grota Funda, na ápoca ainda não tinha passagem para Campo Grande, e teve uma cena em que tínhamos que gravar numa lagoa. O diretor (Joaquim Pedro de Andrade) queria todo mundo nu para dar maior realidade à cena, afinal era o Cinema Novo (risos). Éramos eu, Grande Otelo, Joana Fomm e outros. Segundo o próprio Joaquim, a gente não precisava se preocupar porque a área estava fechada e ninguém ia ver. Tiramos a roupa timidamente, mas quando o Otelo tirou aí que morremos de vergonha: o ‘instrumento’ dele era o melhor em tamanho e em qualidade (risos). Quando entramos na água eu vi ao longe pessoas de tudo quanto é jeito, até em cima da árvore vendo a gente. (risos) Que vergonha!”

“Para interpretar a Rainha Diaba (filme de mesmo nome, de 1974) fiz laboratório na Lapa para observar os gays da época e o filme acabou sendo rodado na Lapa. Antes de aceitar o papel, falei para o diretor que ia fazer, mas com duas condições: não ia ter beijo na boca, muito menos briga de espadas (risos). Passado um tempo, entre uma cena e outra estava descansando, ainda maquiado do personagem, quando senta do meu lado uma bicha toda toda: ‘ você está fazendo uma filme sobre a minha vida?’. Respondi seco: ‘Não!’. ‘Ué, mas não é um filme sobre a Madame Satã?’. ‘Não! É sobre outra bicha negra!’ (risos) Quando fui perceber era a própria Madame Satã. (risos)”

‘DEPOIMENTOS PARA A POSTERIDADE’

Em 1966, o MIS-RJ inaugurou o projeto “Depoimentos para a posteridade”, inédito programa de história oral criado para preservar a memória de diversos setores da cultura nacional, tais como a música, a literatura, o cinema e as artes plásticas. Atualmente conta com um acervo de mais de mil depoimentos, com quatro mil horas de material gravado em áudio e vídeo de figuras notáveis, como Nelson Rodrigues, Tarsila do Amaral, Isaac Karabitchesky, Dona Ivone Lara, Gilberto Braga, entre outros. Vale lembrar que todos os testemunhos ficam à disposição do público nas salas de consulta do MIS, 48 horas depois do término da entrevista.

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