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FATIMA GUEDES – OUTROS TONS (2006)

27 de janeiro de 2017


 

Na semana em homenagem aos 90 anos de Tom Jobim, a 30ª edição da Discoteca Básica Brasileira do Século XXI MIS não poderia ser diferente – um tributo ao maestro soberano.

Pensamos nas diversas celebrações que surgiram nesses últimos anos. Tivemos projetos grandiosos, como  o”Jobim Sinfônico” com a OSESP e direção de Mario Adnet e Paulo Jobim. Trabalhos maravilhosos e impecáveis. Porém, resolvemos caminhar pelas boates, inferninhos, de um Tom Jobim angustiado com a vida de músico da noite. Como ele falou para o “Depoimentos para Posteridade” do MIS em 1967,  ele quase levou um tiro em uma briga entre clientes, poor trabalhar das oito da noite até o dia clarear, ficava também distante de Tereza, sua mulher, e do filho Paulo. Foi um momento difícil, mas ao mesmo tempo de uma revolução na moderna música brasileira.

Sabendo disso, Fatima Guedes e o produtor Marcus Fernando trouxeram para o século XXI aquele sambas-canção, aquele lamento, aquela verdade mais pura nas letras, já com as mais belas harmonias e melodias de Tom. Respeitando as pequenas formações que surgiam na virada dos anos 1950 para os 1960, convidaram um trio para a gravação, formado por: Paulo Midosi (piano), Ronaldo Diamante (baixo) e Élcio Cáfaro (bateria).

Passeamos pelos anos 1950, com a voz doce de Fatima Guedes, pelas ruas de Copacabana, Leme, o grande florescer das boates e da bossa nova. Em “Outros Tons”, nos deparamos com as duas primeiras composições gravadas de Tom: “Incerteza”, com o parceiro de noite, amigo de infância Newton Mendonça, e “Faz uma semana”, lançadas em um 78 rpm de 1953 do grande crooner Ernâni Filho, cantor que já se diferenciava de sua geração pelo canto contido e menos explosivo.

“Na incerteza/Em que vivo os meus dias/Ainda espero/O mais claro amanhã…”, esse trecho de “Faz uma semana” demonstra muito bem a sensação do músico da noite, uma grande escola na nossa música brasileira.

Fatima Guedes visita um território raríssimo, como “Na hora do adeus”, canção gravada apenas por Zezinho, em 1960, que ficou conhecido por ser o vocalista do grupo de Vadico, revolucionário pianista pré-Tom Jobim. Aqui, Fatima Guedes une o universo de Tom, Vinicius, Luiz Bonfá a uma geração anterior e não menos importante, como os músicos Vadico, Valzinho e Garoto. Eles são responsáveis por modernizar a música brasileira, ao mesmo tempo em que a gravação mecânica dava lugar a elétrica e os 78 rpm abriam espaço para o mais fidedigno 33 rpm.

Fatima Guedes faz um tributo a Tom, mas igualmente para a música brasileira entre os anos 1950 e 1960. Expõe esse momento importante de tanta ebulição e mostra, com beleza e dor, essas canções que são parte da transformação da nossa música.

Faixa a Faixa, por Hugo Sukman, feito para o encarte do CD. 

“Na hora do adeus” – Ouçam Fatima Guedes nesse esquecido samba (por que, meu Deus, trata-se de um clássico!), digno exemplar da parceria Tom e Vinicius, gravado por Zezinho em 1960, e vejam que, para além da afinação e da personalidade, ela tem a bossa e a malícia que nosso gênero maior tanto exige de um cantor.

“Faz uma semana” – Escrito em parceria com João Stockler, o popular baterista Juquinha, este samba-canção, segunda composição gravada de Jobim, já anuncia tudo que marcaria sua música: a maneira suave de falar da dor e do amor, o requinte harmônico e melódico, a exigência de se cantar de forma coloquial, discreta e precisa, a alta concentração poética em versos aparentemente simples. Embora esquecido (como, meu Deus?), este samba era de especial predileção do compositor.

“A chuva caiu” – Toada típica da parceria de Jobim com o violonista Luiz Bonfá, é da mesma cepa do grande sucesso dos dois, “Correnteza”. Mas além disso, revela um caminho tão marcante quanto o do samba na música jobiniana, o da inspiração ecológica. A gravação original, de Ângela Maria, ainda que bela era carregada de dramaticidade. Agora, Fatima acha finalmente o jeito mais preciso de entoar a toada.

“Engano” Este já é um Jobim e Bonfá mais com a cara dos dois: é um samba-canção moderno, lançado por uma cantora moderna (Doris Monteiro), tratando o amor de forma moderna. Ou seja, um tipo de samba-canção que tanto influenciou Fatima como compositora, é peça perfeita para sua interpretação.

“incerteza” – Primeira música gravada de Jobim e não por acaso, logo em parceria com Newton Mendonça, seu amigo de infância, seu companheiro de piano na noite e seu grande primeiro parceiro, esta “Incerteza” guarda uma curiosidade: gravada pelo especialista Mauricy Moura é um samba-canção, digamos, mais tradicional, mais pessimista e grandioso, se comparado ao “Faz uma semana”, gravado por Ernani Filho no mesmo ano de 1953. É como se Jobim, da primeira para a segunda gravação, fizesse a ponte entre o tradicional e o moderno.

“Sonho desfeito” – Embora mais novo que os seus parceiros Paulo Soledade e Armando Cavalcanti, Jobim mostra-se aí um típico representante da música brasileira dos anos 50. “Sonho desfeito” é um ótimo samba de transição (gravado por um cantor também de transição, Bill Farr, nem antigo nem moderno), que seria superado pelo próprio Jobim no “Chega de saudade”.

“Olha pro céu” – Esta grande canção de Jobim nasceu instrumental e seria gravada desta forma no disco “Wave”, feito em Los Angeles no final dos 60, por isso com o título em inglês “Look to the sky”. Mas tinha letra, e das boas, do próprio Jobim, que só seria gravada por Leny Andrade nos anos 90. Agora, Fatima recupera esta canção e dá a ela uma versão sessentista, fazendo-a da forma como ela seria gravada na época em que foi composta.

“Pelos caminhos da vida” – Sem dúvida uma das grandes canções de amor e dor da dupla Tom e Vinicius, estava injustamente esquecida numa velha (e magnífica) gravação de Maysa de 1959. Mais do que a canção de Tom, é curioso notar como a letra de Vinicius ainda é do poeta em transição entre o universo literário e o universo puramente musical, de como o poeta estava ainda em busca da expressão mais direta e da moderna letra brasileira que ele, de certa forma, estava inventando ali.

“Para não sofrer” – Em 1962, ou seja, na pré-história do estouro mundial da música brasileira, ainda era possível que um samba de Jobim como este tivesse uma gravação à moda antiga, como a (linda, aliás) de Nelly Martins, uma cantora da transição dos anos 50. Agora, finalmente, o samba é apresentado de forma moderna por Fatima.

“Pensando em você” – Era o lado B de “Faz uma semana”, gravado por Ernani Filho no mesmo 78 rotações da gravadora Sinter, em 1953. Vocês hão de notar que é um samba-canção bonito, já com a marca de Jobim de observar o amor no dia-a-dia, de marcar o amor pela passagem do tempo.

“Vida bela (Praia Branca) – Esta é uma obra-prima, uma canção praieira de Tom e Vinicius cheia de mistérios, reentrâncias e belezas, que ficou perdida entre tantas canções do histórico LP “Canção do amor demais”, no qual Tom, Vinicius e Elizeth Cardoso anunciavam que o futuro chegara naquele ano de 1958. A música brasileira despertou, nunca mais seria a mesma, e Fatima agora cantando isso de novo mostra, de alguma forma, o porquê.

“Luar e batucada”– Música e letra de Jobim e Newton Mendonça, com gravação de Sylvia Telles em 1957. Bossa nova, portanto, não? Não, uma ode ao samba eterno, gênero central da música brasileira moderna e urbana, do qual a bossa nova é uma respeitosa seguidora. Pois neste samba que louva o samba (“Dono do terreiro/Manda na cidade/Sacode o mundo inteiro), Fatima encerra seu disco sobre a obra de Jobim da maneira mais clara possível. Ela quer dizer, como Jobim sempre quis dizer, que “remédio pra tristeza é samba”. Pois é.

Ouça!

 

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