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DONA IVONE LARA – NASCI PRA SONHAR E CANTAR (2001)

03 de março de 2017


 

“O que trago dentro de mim preciso revelar/ Eu solto um mundo de tristeza que a vida me dá/ Me exponho a tanta emoção/ Nasci pra sonhar e cantar/ Na busca incessante do amor/ Que desejo encontrar”.

A 35ª edição da Discoteca Básica Brasileira do Século XXI MIS homenageia a nossa rainha Dona Ivone Lara. A primeira-dama do samba, como eternizou Hermínio Bello de Carvalho, entrou para o século XXI com um dos seus principais trabalhos, “Nasci Pra Sonhar e Cantar” (2001), produzido pela Lusáfrica, a gravadora que projetou Cesária Évora para o mundo, e lançado no Brasil pela Natasha Records.

Para além de lançamento internacional, “Nasci Pra Sonhar e Cantar” por si só é um belíssimo trabalho e um acontecimento já que Dona Ivone Lara não lançava há quinze anos um disco com músicas inéditas. Com produção de Paulo Cesar Figueiredo e arranjos do grande violonista João de Aquino, o disco é um convite ao nosso melhor samba, com o mesmo vigor criativo. Dona Ivone chegava ao século XXI e pela porta da frente, com liberdade de escolha de repertório e arranjos. São dez canções novas na sua voz e quatro regravações. “Nasci Pra Sonhar e Cantar” venceu prêmios no Brasil e no exterior. Isso anteciparia os próximos anos repletos de homenagens à primeira-dama.

Dá para sentir em versos a história dessa menina filha de Oxum, com armadura feita de ouro, que tinha como pai, José da Silva Lara, mecânico de bicicletas, mas também violonista de sete cordas e que participava dos ranchos carnavalescos Ameno Resedá e Flor do Abacate, esse último ao lado da mãe Emerentina Bento da Silva, cantora amadora do rancho (Os importantes ranchos carnavalescos que enaltecemos na nossa última discoteca básica como o Flor do Sereno).

Nota-se também o canto amalgamado pelos estudos com a professora Lucília Guimarães Villa-Lobos – no Internato Orsina da Fonseca –, a força dos jongos, o caxambu, a origem no Prazer da Serrinha, quando aprendeu cavaquinho com o tio Dionísio e fez as primeiras parcerias com os primos Hélio do Santos e Mestre Fuleiro, até se imortalizar como a primeira mulher na ala de compositores com o hino do Império Serrano “Os cincos bailes da história do Rio”, ao lado de Bacalhau e Silas de Oliveira.

Antes, Dona Ivone Lara trabalhou como enfermeira de 1947 até 1977, usando a música como ferramenta para o tratamento de portadores de transtornos psíquicos, ao lado da revolucionária médica Nise da Silveira.

A mulher, que tem sua vida como uma própria revolução, faz todo sentido para esse século XXI de pé na porta nas molduras sociais doentias. Não por acaso, “Nasci pra sonhar e cantar” traz quatro sambas apenas de sua autoria “Deus está te castigando”, “Canção da felicidade”, “Ela é rainha”, “Axé de Ianga (Pai Maior)”, o que reforça seu poder criador de melodias ancestrais com versos lindíssimos.

O disco abre com “Deus está te castigando”, samba inédito com letra e música de Dona Ivone Lara. “Eu não esqueci do passado/ Quando erraste eu te perdoei”, canção de amor, mas que também poderia servir para as dificuldades que a cantora teve em sua vida na indústria fonográfica, com pouco espaço, apesar do amplo repertório.

“Nasci pra sonhar e cantar”, feita com o seu grande parceiro Delcio Carvalho, é uma das regravações do trabalho. O clássico ganha um arranjo delicado e precioso de João de Aquino, que também toca violão na faixa, e é acompanhado apenas pelo acordeom de Chiquinho Chagas e pela flauta de Dirceu Leite. Gravação maravilhosa, daquelas de deixar o coração apertado.

“Nas asas da canção”,com Nelson Sargento, tema ainda inédito na voz de Ivone Lara, é um samba metalinguístico que fala da busca pelas melodias fantásticas: “Sei que a minha mente está cansada/ Foram tantas madrugadas/ Quantas ilusões perdidas/ Quero versos com muito lirismo/ Para tirar do abismo, teu pobre coração/ Lindas melodias, emuldurando as fantasias, da minha imaginação”.

“Um grande sonho”, antecipa a parceria fértil com o jovem cantor e compositor Bruno Castro, com quem dividiu inclusive um disco dez anos depois deste trabalho.

“Agora”, samba inédito com Delcio Carvalho, é um daqueles doloroso da dupla: “Só agora sabe que o lamento/ Passa como vento, e a ninguém comove/ Numa noite chuvosa, num imenso deserto/ Quando alguém se lastima/ Ninguém fica por perto”.

“Poeta sonhador”, parceria com o produtor Paulo Castro Alves, começa com um trabalho rítmico fantástico até receber o coro das cantoras Aurea Martins, Analimar, Jurema Lourenço, Mart’nália e Tia Surica.

“Canção da Felicidade”, também com letra e melodia de Dona Ivone Lara, só reafirma seu poder criativo após mais de cinquenta anos de carreira.

“Tendência”, parceria com Jorge Aragão, outro clássico do repertório da compositora, mas que novamente ganha um arranjo esplendoroso de João de Aquino, tão belo, ou mais, que o original do disco “Sorriso Negro” (1981). Canção que encaixa perfeitamente na sequente “Canto do meu viver”, com o amigo Delcio Carvalho. “Eu me perdi no canto do meu viver/ Sem saber a razão de tanto sofrer/ Só quis cantar o amor/ viver o amor que ataza minha alma/ Em uma chama intensa que não se acalma”. Destaque para as linhas mélodicas da clarineta, clarone e flauta de Dirceu Leite, que introduzem e fecham o samba.

“Essência de um grande amor”, com Sombrinha, é um batuque pesado em que Duarte usa até uma tampa de cinzeiro para levar nosso samba de volta aos caminhos da África e que traz o clima do final de “Nasci pra sonhar e cantar”.

“Chorei, confesso”, um dos ouros da dupla Ivone-Delcio, que já havia sido gravado pelo Fundo de Quintal e pelo próprio Delcio Carvalho, ganha o terreirão de Dova Ivone Lara. O recado espiritual vem com “Ela é rainha”, “Veio do além/ É nossa amiga/ Não engana ninguém”, samba ao som do prato de Mestre Trambique que recebe muito bem as próximas faixas “Axé de Ianga (Pai Maior)” e “Sereia Guiomar”, com Delcio Carvalho, vindos também do antológico “Sorriso Negro” (1981).

Em “Axé de Ianga”, Dona Ivone Lara usa maravilhosamente seu berço familiar para contar a história do nosso país: “Vovô veio de Angola/ com seu mano Tio José/ trouxe cravos, trouxe rosas/ Pra salvar filhos de fé/ E rezou a ladainha/ Pra Jesus de Nazaré/ Ianga, Ianga que tipoi Ianga/ Didianga me”. E termina a parte triste que jamais deve ser esquecida e, principalmente, despercebida:  “Tia Teresa nos contava/ A história do vovô/ Que tirava irmão do tronco/ Escondido do senhor/ Pra curar seus ferimentos/ Com o banho de abô/ Ianga, Ianga que tipoi Ianga/ Didianga me”. Tudo com os ancestrais e sagrados tambores rum de Esguleba, rumpi de Duarte e lé de Ivan Milanez e Mestre Trambique.

“Nasci pra sonhar e cantar” é um caso raro na história de muitos veteranos, ao trazer um excelente repertório inédito, ao mesmo tempo em que antigas canções ganham arranjos temperadíssimos de João de Aquino, em uma moldura rica de timbres onde tudo parece eterno e novo.


Ficha técnica: 

Analimar : Coro
Áurea Martins : Coro
Beloba: Percussão
Carlinhos 7 cordas: Violão 7 cordas
Chiquinho Chagas: Acordeon
Dirceu Leite: Sopros
Duarte : Percussão
Gordinho : Percussão
Hulk: Cavaquinho
Ivan Milanez : Percussão
João de Aquino : Violão
Jurema Lourenço : Coro
Marcos Esguleba: Percussão
Mart’nália : Coro
Mestre Trambique: percussão
Nadinho da Ilha : Coro
Sérginho Procópio: Cavaquinho
Tia Surica: Coro
Ubrany Nascimento: Percussão

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