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CLÁUDIO JORGE – COISA DE CHEFE (2001)

23 de setembro de 2016


 

Como o samba chegou no século XXI? Um exemplo preciso do que é esse samba, sofisticado, moderno é “Coisa de chefe”, lançado por Cláudio Jorge, em 2001, pela Carioca Discos, gravadora criada por ele, com o grande produtor Paulinho Albuquerque, que nos deixou em 2006, e o engenheiro de som Guilherme Reis.

Nossa 13º edição da Discoteca Básica Brasileira do Século XXI MIS traz um símbolo de transformação para o samba nesse século, mas carregado de todo o seu peso ancestral.

Cláudio Jorge, carioca do Cachambi, Zona Norte, filho do jornalista e boêmio Everaldo de Barros, começou profissionalmente sendo um exímio violonista, acompanhando mestres como Clementina de Jesus, Cartola, Nelson Cavaquinho e Ismael Silva.

O músico também ficou conhecido pelas suas produções, o principal produtor do samba atual, trabalhando em discos de artistas como Roberto Ribeiro, seu parceiro e amigo.

“Coisa de Chefe” foi um dos cinco indicados para disputar o prêmio Grammy Latino na categoria melhor disco de samba, em 2002. E é uma grande reflexão, um manifesto sobre o samba contemporâneo. É um trabalho que nos remete à ancestralidade do samba, mas sem esquecer a viagem para o século XXI, desde a mixagem impecável de Guilherme Reis, até os arranjos sofisticados e lindos de Cláudio Jorge, que também recebe apoio de Gilson Peranzetta (sopros e cordas), Cristóvão Bastos (cordas), Carlos Malta (sopros) e Fernando Merlino (sopros).

“Meu samba pede passagem/ meu samba pede o ingresso/ meu samba quer homenagem/ porque meu samba é sucesso.” O disco começa com o pedido de permissão de um artista que respeita a história do gênero e que viveu intensamente os seus últimos 50 anos.

“Amor de fato”, uma de suas parcerias com João Nogueira, de 1978, chega com uma sonoridade que lembra o primeiro disco de Cláudio Jorge, pela EMI, em 1980.

“Novos tempos” traz um arranjo de cordas primoroso de Gilson Peranzetta. Realmente falamos de novos tempos, de um samba sofisticado, bem gravado, produzido, um portal para esse século que se iniciava.

A quarta faixa chega com a participação de Luiz Carlos da Vila, que lançou pela Carioca Discos, o excelente “Benza, Deus”, parte também inevitável de nossa Discoteca Básica Brasileira do Século XXI MIS. 

A faixa-título é uma grande reflexão sobre o futuro do samba, que cita sua matriz: “O samba é a minha matriz, raiz/ presente de Deus mais puro, futuro/ o samba é pra se viver/ não é coisa de vender/ vem do coração, tem mais que razão/ é uma questão de ser ou não ser”. E trata o samba como aquele que se movimenta, se move com o tempo, levando em conta, claro, suas matrizes ancestrais.

“Quem zomba da tradição/ não fez essa tradução/ se vem do passado/ nos mostra o caminho/ daquilo que leva à transformação/ não venha me obrigar/ meu samba ‘modernizar’/ ele é movimento, se move com o tempo/ e é preciso se respeitar/ levando a carroça pro seu lugar.”

Podemos afirmar que só Cláudio Jorge poderia ter escrito esse samba, já que é um grande pensador e crítico desse momento. Está além do pensamento, está na ponta da frente como produtor, entusiasta de um selo que propõe dar excelência ao gênero.

Em seguida, o grande Wilson das Neves aparece com duas parcerias, “E o vento levou” e “O que é carnaval”, abrindo espaço para o saudosismo mais poético: “Me lembro que a Escola de Samba era como família/ que não se trocava, nem por uma milha”.

“Panela na pia” é uma grande festa de samba, um pagode, uma parceria com Jamil Joanes, herói da Banda Black Rio, um dos principais baixistas do Brasil. A música também recebe a participação do grupo Toque de Prima.

Letra divertida com um assunto comum em festas dentro de casa, com tempero musical. “Quero ver quem vai encarar um montão de panela na pia”. Música que mistura personagens como os jogadores Edmundo e Romário, com os presidentes da época Bill Clinton e Fernando Henrique Cardoso.

“Chamei o Bill Clinton na xinxa/ “vem cá meu compadre, tu tá na minha área”/ foi saindo de fininho/ ele tava de olho numa secretária/ apelei para o Fernando Henrique/ não pode porque o protocolo o impedia/ quero ver quem que vai encarar/ um montão de panela na pia.”

Chamar “Bill Clinton na xinxa” é algo maravilhoso.

“Solidariedade humana” é uma canção de amor, com acompanhamento de cordas e participações especiais de Newton Rodrigues (trompete) Cláudia Telles (vocal e arranjo vocal) e Analimar Ventapane (vocal).

“Só você”, parceria com Luis Alfredo Milleco, abre com uma fantástica introdução de flauta de José Carlos Bigorna, outra canção que marca o momento mais solitário do disco, reflexões de um homem: “Quem nāo quis aprender/ a ficar sem sofrer, só você.”

“Quando toco na viola”, parceria com Ivan Lins, ao mesmo tempo que possui um arranjo de cordas que nos remete a nossas melhores orquestras, gafieiras, com contrapontos perfeitos, também mostra a sofisticação desse trabalho. É o samba batendo à porta do Século XXI, mas sem perder sua origem: “Quando toco na viola/ essa herança quilombola/ me leva pra rodar o mundo/ levo dentro da sacola/ toda a minha curriola/ dos tempos do Pedro II/ viajar, é semear a saudade/ pra depois voltar”. Talvez essa seja a maior síntese de “Coisa de chefe”, de sua pretensão bem resolvida, em ser moderno e ancestral.

“Estrela cadente” e “Coco sacudido” são duas parcerias com Nei Lopes, seu principal companheiro em desenhar sambas por esses tempos. “Estrela cadente” foi lançada por Maria Creuza e “Coco sacudido” pelo amigo Roberto Ribeiro, um verdadeiro coco pra cima, sacudido de fato.

“Coisa de chefe” finaliza com “Samba pra Luisão Maia”, um de nossos chefes, um de nossos maiores músicos da história, baixista dos discos mais primorosos do Brasil. A faixa tem participação de Leny Andrade, que faz apenas vocalizes – já que é um tema instrumental – e Jamil Joanes homenageia o baixo único de Luisão, uma linha melódica próxima ao samba soul, coisa fina, magnífica, perto do jazz, mas também às escolas de samba, em um final triunfal de um dos trabalhos mais importantes desse Século XXI.

Ouça!

Nossos melhores músicos:

Cláudio Jorge – violāo, arranjo de base
Alceu Maia – cavaquinho
Wanderson Martins – cavaquinho
Filipe Lima – violāo sete cordas
Fernando Merlino – piano
Ivan Machado – baixo
Jamil Joanes – baixo
Arlindo Cruz – banjo
Camilo Mriano – bateria
Gordinho – surdo
Humberto Araujo – sax soprano
Ovídio Brito – pandeiro, tamborim
Marcelinho Moreira – repique, caixa, tamborim
Jaguara – repique, caixa, tamborim
Armando Marçal – repique, caixa, tamborim
Beloba – repique, caixa, tamborim
Pirulito – repique, caixa, tamborim
Trambique – repique, caixa, tamborim
Gordinho – surdo
Carlos Malta – sax soprano, flauta em C, flautim
Zé Nogueira – sax soprano
Nelson Oliveira – trumpete
Roberto Marques – trombone
Ricardo Pontes – flauta
Dirceu Leite – flauta, clarinete
Jose Carlos Bigorna – flautas
Carlos Vega – tuba
Eliezer Rodrigues – bombardino
Lulu Pereira – trombone
Nelson Oliveira – trumpete
Newton Rodrigues – trumpete
Paschoal Perrota – coordenaçāo e violino
Bernardo Bessler – spalla
Michel Bessler – violino
Antonela Pareschi – violino
Joseé alves – violino
Joaāo Daltro – violino
Marie-Christine Springel Bessler – viola
Jesuina Passaroto – viola
Alceu Reis – cello
Iura Ranewsky – cello
Mart’nália, Analimar Ventapani,Claudia Telles, Viviane Godoi, Marcelinho Moreira, Ary Bispo, Cavalo, Cláudio Jorge – coro

FICHA TÉCNICA

Produçāo Fonográfica: CARIOCA DISCOS
Produçāo Artistica: Paulinho Albuquerque
Gravado e mixado em Protools 24 Mix no Estúdio Discover – Rio de Janeiro julho/agosto de 2000
Técnicos de gravaçāo: Rodrigo Lopes e Guilherme Reis
Técnico de mixagem: Guilherme Reis
Auxiliares: pedro Burckauser e André Coelho
Masterizaçāo: Ofinina de Audio e Video
Capa e diagramaçāo: Mello Menezes e José Feijó
Fotos: Bruno Veiga.
Foto na base do CD: Everaldo de Barros

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