MIS Blog/

CHICO BUARQUE – CHICO (2011)

11 de novembro de 2016


 

“Hoje topei com alguns conhecidos meus/ Me dão bom-dia, cheios de carinho/ Dizem para eu ter muita luz, ficar com Deus/ Eles têm pena de eu viver sozinho”.

Para comemorar nossa 20ª edição da Discoteca Básica Brasileira do Século XXI MIS, vamos falar de Chico Buarque de Hollanda e seu “Chico”, de 2011.

O trabalho traz o compositor após escrever “Leite derramado”(2009), o seu quarto romance. São canções delicadas, mas de uma profundidade tremenda, como “Meu querido diário”, que abre o disco, uma crônica simples particular, mas que nos leva imediatamente ao tempo de hoje. O trecho “Hoje pensei em ter religião/ De alguma ovelha, talvez, fazer sacrifício/ Por uma estátua ter adoração/ Amar uma mulher sem orifício”,causou certo estranhamento, mas mostra um Chico agudo e pleno neste século XXI.

Com uma formação simples, o quarteto: Luiz Claudio Ramos (violão/arranjos), Jorge Helder (baixo), João Rebouças (piano), Jurim Moreira (bateria), “Chico” é uma obra de um compositor. Livre também de artimanhas de sonoridades e artificialidade. Apenas em “Meu querido diário”, ele recebe a presença do Quarteto Radamaés Gnattali nas cordas, e em “Rubato” e “Sou eu”, arranjo de sopros. O restante do disco é enxuto, impactante.

E, para quem não consegue entender a evolução do compositor, basta mergulhar em “Rubato”, parceria com o baixista Jorge Helder, uma marcha em compasso ternário, que vai dialogando com a letra sobre um compositor que rouba uma canção: “Venha ouvir sem mais demora/ A nossa música / Que estou roubando de outro compositor/ E já retoco os versos com maior talento/ Dou um polimento e exponho na televisão”. É uma obra fantástica com direito a letra e música espetaculares.

“Essa pequena” é tipo um blues, como mesmo definiu Chico, que recebe o violino de Nicolas Krassik. A letra trata da relação entre um homem mais velho e uma mulher jovem: “Meu tempo e curto, o tempo dela sobra / Meu cabelo é cinza, o dela é cor de abóbora”. O clima do violino leva a canção para uma espécie de café em Paris, em outra época, em outros tons. Mas também pode ser um retrato pessoal de Chico.

Tipo um baião” começa como uma canção e termina como um baião, que Chico até ajuda a explicar ao final da letra: “E ainda tem/ Em saraus ao luar / Meu coração/ Que você sem pensar/ Ora brinca de inflar/ Ora esmaga/ Igual que nem/ Fole de acordeão/ Tipo assim num baião/ Do Gonzaga”. A música tem o auxílio do guitarrista Frado e mescla as dissonâncias ao coro perfeito de Jurema de Candia, Nair de Candia, Viviane Godoy.

Chico incorpora todo um vocabulário e uma forma de de falar novos (como no verso “Igual que nem”), o que aliás está no espírito do disco inteiro.

A cantora Thaís Gulin participa com Chico em “Se eu soubesse”, que ganha aqui o acompanhamento precioso de Paulo Sergio Santos, no clarinete e Cristina Braga, na harpa. Uma composição jobiniana, um choro-canção, sofisticado e que termina com a simplicidade de um amor feliz: “Mas acontece que eu sorri para ti/ E aí, larari, lairiri, por aí.

“Sem você 2”, parte da composição “Sem você”, clássico de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, samba-canção lançado em 1959 por Sylvia Telles, que Luiz Claudio Ramos cita na introdução. É como fosse uma continuação, mas diferente de outras canções tristes de amor, “Sem você 2”, consegue beliscar também um lado otimista e isso faz ainda parecer mais real para os romances de hoje: “Pois sem você/ O tempo é todo meu/ Posso até ver o futeb”ol/ Ir ao museu, ou não/ Passo o domingo olhando o mar/ Ondas que vêm/ Ondas que vão

“Sou Eu”, samba feito em parceria com Ivan Lins, foi lançado em 2009 por Diogo Nogueira, e desta vez traz a participação do baterista, compositor e cantor Wilson das Neves, companheiro de Chico há muito tempo. O samba fala sobre o cara que vai o baile e fica vendo sua mulher arrastando as asas para meio salão: “Na minha mão/ O coração balança/ Quando ela se lança/ No salão/ Para esse ela bamboleia/ Para aquele ela roda a saia/ Com o outro ela se desfaz/ Da sandália”.

“Nina foi a primeira composição feita para esse disco, ainda na época “Carioca”, de 2006. É uma referência à “Ninotchka”, personagem de Greta Garbo, do filme homônimo de 1939. A protagonista da canção vaga pelos sonhos do narrador-sonhador. Um amor impossível entre hemisférios:  “Nina anseia por me conhecer em breve/ Me levar para a noite de moscou/ Sempre que esta valsa toca/ Fecho os olhos, bebo alguma vodca/ E vou”. Realmente a valsa toca e o acordeão Marcos Nimrichter quase nos leva junto com o Narrador para uma noite em Moscou.

“É, não é/ Era Zizinho era Pelé/ Aliás, Soraia era Anabela/ Era amarela a saia/ Foi quando a verde-e-rosa saiu campeã / Cantando Cartola ao romper da manhã”, o samba “Barafunda” é uma brincadeira com lapsos de memórias. Mistura, confunde tudo, amores, futebol, carnaval e parece “filha” do personagem “Eulálio”, narrador de “Leite Derramado”, que vivia imerso nessas confusões.

“Chico” termina no ápice com “Sinhá”, parceria com João Bosco, um afro-samba com tons rurais, com uma letra preciosa de Chico sobre um escravo em vias de ser torturado pelo seu senhor acusado de ter visto sinhá nua:

“Eu só cheguei no açude/ Atrás da sabiá/ Olhava o arvoredo/ Eu não olhei Sinhá/ Se a dona se despiu/ Eu já andava além/ Estava na moenda/ Estava para Xerém/ Por que talhar meu corpo/ Eu não olhei Sinhá/ Para que que vosmincê/ Meus olhos vai furar/ Eu choro em iorubá/ Mas oro por Jesus/ Para que que vassuncê/ Me tira a luz.”

O violão e vocalizes de João Bosco adensam ainda mais a composição. “Sinhá” encerra “Chico”, um trabalho repleto de crônicas, cotidiano, canções de amor, histórias, imaginações. É uma obra madura, de um compositor que transcende o tempo. Para Chico Buarque, um século não é nada e sua obra é infinita.


Ficha técnica:

Quarteto Radamés Gnattali:
Carla Rincon: 1 violino
Francisco Roa: 2 violino
Fernando Tebaldi: viola
Hugo Pilger: violoncelo

Participações:

Nicolas Krassik: violino
Hugo Pilger: violoncelo
Marcos Nimrichter: acordeão
Jaime Alem: viola
Luiz Alves: baixo
João Rebouças: piano
Robertinho Silva: percussão
Armando Marçal: percussão

Sopros:
Marcio Andre: Flugelhorn
Paulo Sergio Santos: clarinete
Marcelo Bernardes: clarinete e flautim
Aldivas Ayres: trombone
Jesse Sadoc: trombone
Wellington Moura: Trompete
Marcelo Martins: sax tenor e flauta em Dó
Zé Canuto: sax alto e flauta em Dó
Eliezer Rodrigues: tuba
Jesse Sadoc Filho: trompete
Franklin da Flauta: flautim

 

 

 

 

PARCEIROS


 

Sede Administrativa
Rua Visconde de Maranguape, 15
Largo da Lapa, CEP 20021-390
Rio de Janeiro/ RJ

Sede Praça XV
Praça Luiz Souza Dantas, 01
Praça XV, Rio de Janeiro/ RJ
Rio de Janeiro/ RJ, Brasil

Tel +55 21 2332-9509/ 2332-9507 (Lapa)
Tel +55 21 2332-9068 (Praça XV)
Email: ola@mis.rj.gov.br

©

2017 MIS–RJ
Termos de uso/ FAQ
design ps.2