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BRENO RUIZ – CANTILENAS BRASILEIRAS (2016)

16 de dezembro de 2016


 

Nossa 24º edição da Discoteca Básica Brasileira do Século XXI MIS chega ao ano de 2016, pela primeira vez, para apresentar o talento de Breno Ruiz e seu disco de estreia. Um trabalho que vem sendo esperado há muito tempo, desde quando ele começou a despertar interesse de músicos e compositores de diversas gerações.

O cantor, pianista e compositor já foi gravado pelo MPB4, por Renato Braz e Quarteto Maogani e por cantores da nova geração, como Ilana Volcov e Dani Gurgel.

Nascido em Sorocaba, no interior de São Paulo, em 1983, mas criado na vizinha Itapetininga, Breno Ruiz constrói há mais de 15 anos suas primeiras obras. Nessa mesma região do interior paulista, ele foi estudar no celebrado Conservatório de Tatuí, uma das principais escolas de música do país.

Tudo parece ser uma história comum, mas os percalços da vida, a dificuldade de ser músico no interior, a paixão por sua terra e seus costumes, somado a uma genialidade que não se via na última década, transformam esse projeto numa obra-prima. Partindo dos amores ancestrais, da criação, da dor. Com sua maneira particular, Breno transformou a canção mais tradicional brasileira, que vem lá atrás com Chiquinha Gonzaga, Joaquim Callado, Villa-Lobos em algo novo.

Entre lundus, modinhas, choros, Breno Ruiz faz de “Cantilenas Brasileiras” uma importante obra para a atual música brasileira. Sua arte é como se fosse um possível recomeço dos nossos caminhos tortuosos.

Para ajudá-lo nessa caminhada, Breno foi rápido e destemido. Lá atrás, há mais de 10 anos, o artista procurou Paulo César Pinheiro para ouvir suas músicas. Depois de um tempo na procura, ele conseguiu enviar uma fita com seu número de telefone. Paulinho ligou de imediato e pediu mais trabalhos para ter certeza daquela magnitude.

Dali em diante se iniciaria uma parceria que já soma mais de 40 composições e, 12 delas, estão em “Cantilenas brasileiras”, que vamos falar agora.

O grupo que acompanha Breno Ruiz é formado por Neymar Dias (contrabaixo acústico, naipe de cordas e viola), Igor Pimenta (contrabaixo acústico), Pedro Alterio (violões) e Gabriel Alterio (bateria e percussões). Além disso, temos as participações especiais de Renato Braz e Mônica Salmaso.

O disco começa com “Marinheiro do mar – Porto de Araújo No.2”, com a densidade das primeiras notas do piano, um bordão que abre-alas para a chegada da sanfona com o encontro de um mar Caymmiano. O título é uma menção a “Porto de Araújo”, de Guinga e Paulo César Pinheiro, que fala do mesmo assunto, canção gravada por Miúcha, em 1989 e depois por Vírginia Rodrigues, Francis Hime e Mônica Salmaso.

Quando Breno Ruiz visitou Paulinho pela primeira vez, Luciana Rabello, cavaquinista, mulher de Pinheiro, que assina o texto do encarte desse disco, perguntou: “De onde você tirou esses lundus?” Na época, com 20 anos mais ou menos, Breno não sabia explicar muito bem o que era.  Agora, mais de 10 anos depois, esse primeiro lundu virou “Estrela branca”, segunda faixa do trabalho.

“Flor lilás” é uma modinha que vai se transformando junto a uma melodia linda e sofisticada. A viagem ao passado é reforçado com a letra de Paulinho: “Quando ela ouve o som da minha voz/ Debruça na janela/ Joga uma flor e acena ao trovador/ Que vem cantar para ela”.

“Choro bordado” recebe a participação de Mônica Salmaso e abre com apitos de pássaros que nos leva a terra de “Matita Perê” de Tom Jobim, ao melhor canto das nossas naturezas. Mônica Salmaso interpreta lindamente a canção que cita os pioneiros Chiquinha Gonzaga e Joaquim Callado.

“Meu carrilhão de sons/ Vem de tempos bons/ Vem do forrobodó/ Tinha a Chiquinha/ Tinha o Callado/ Bordando o choro e fechando o nó/ Por isso um som, pra mim/ Se ele for chinfrim/ Não passa no filó”.

Se for chinfrim, não tem vez no mundo de Mônica Salmaso e Breno Ruiz.

“Dança de mucama”, outro lundu do trabalho, fala da relação da Sinhá com a Mucama, a ama do leite, que cria o filho de Sinhá, o ensina a dançar. A letra conta com um jogo de palavras fantástico: “Sua alegria ela é tanta na garganta que ela espanta a tristeza que há/ E quanto mais canta mais se encanta só de olhar”,

O mesmo tema continua em “Roxinha”, que começa com um solo de viola com sotaque de interior paulista, “Vem pra cama dançar um lundu”. Dessa vez, a história parte para a sensualidade.

“Donana” fecha a trilogia rural, com personagens e paisagens criados no período da escravidão. Aqui, o lundu parte para uma introdução de violão que remete a um samba chula, repicado, provando que o “tradicional” que falamos do trabalho de Breno Ruiz não é no mero sentido de reprodução. A tradição aqui é reinventada, parece andar no tempo. É até difícil de alcançar e definir.

“Caçada da Onça” é o segundo ato de “Choro bordado”, com elementos de mata e com uma letra de “causo”. Canção executada apenas com voz e piano e alguns elementos percussivos sutis. Uma obra-prima que vai da simplicidade caipira para transformações harmônicas e melódicas sofisticadíssimas.

Em “Modinha triste”, Breno Ruiz mostra que também é um grande cantor e interpreta perfeitamente a dolorosa e bela canção: “A dor da minha vida/Foi de ilusão de amar/ Foi só um amor/ Mas essa dor/ Não cabe em meu olhar/ A dor da minha vida/ Só se eu chorasse o mar/ Mas por amor/ Nem toda a dor/ Tem tanto para chorar”.

“Cantilena sertaneja” é uma música que exalta o espírito do sertanejo que habita em nosso imaginário, um homem de fé e por vezes bucólico. Os violões em alguns momentos ponteiam dobrando a voz, assim como uma moda caipira. O tema sertanejo prossegue na faixa “Viola do meu bem querer”:  “Na viola eu engano a dor/ Pra ninguém sofrer/ Na alegria ou na solidão/ Eu pego na viola/ Só sei tocar/ Nem sei porque.” História sobre a ligação do violeiro com seu instrumento.
“Roseira, a última faixa do disco, encerra a trilogia do campo iniciada em “Cantilena Sertaneja”. A faixa soa como um acalanto, uma canção de despedida, em um duo de piano e voz nas primeiras estrofes, com acordes alterados na segunda parte. Aqui, a música vai se desdobrando enquanto a história caminha e cresce.

Com temas que vão da vida do sertanejo, do campo, das mucamas e sinhás, das paixões, trovas, Breno Ruiz constrói uma célula de sentimentos com forte carga ancestral, imbuídas pelas letras de Paulo César Pinheiro, mas sem soar meramente histórico. Tem vida, tem cheiro, sabor. “Cantilenas Brasileiras” é um marco para 2016 e acreditamos que também será um marco para nosso futuro.

O MIS/ Museu da Imagem e do Som tem como missão estabelecer o que será a memória do futuro. E quando for se falar no ano de 2016 na história da música brasileira, falaremos necessariamente de Breno Ruiz.

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