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Uma homenagem à Dama do Encantado

19 de agosto de 2014


Ela distribuiu sucessos com sua voz pequena e poderosa até ganhar a alcunha de "O samba em pessoa".

André Weller

 

O texto a seguir é uma homenagem de André Weller, co-curador do MIS / Museu da Imagem e do Som, para o centenário de Aracy de Almeida. Weller é diretor do documentário Araca e eu, em finalização.

 

Há exatos 64 anos, no mês de setembro, chegava às lojas um álbum sem precedentes na história da música brasileira. Num formato de luxo, com capa assinada pelo mestre Di Cavalcanti e finamente orquestrado por Radamés Gnattali, o disco da Continental trazia Noel Rosa interpretado por sua maior intérprete, Aracy de Almeida. Eco do sucesso na sofisticada Boate Vogue, o 78 rpm trouxe à tona, entre os samboleros e baiões da época, a alma boêmia dos anos 30.

Transpondo os cabarés da Lapa para as boates de Copacabana, Araca seguia evocando Noel. Morto há 13 anos, o poeta da Vila ressuscitara embalado pela voz da Dama do Encantado. Este (re)encontro registrado no arrojado LP não só confirmou Aracy como a sua maior intérprete como a fez adentrar ainda mais nas noites boêmias dos inferninhos da Zona Sul carioca. Acompanhada por pequenos conjuntos instrumentais, uma redução das grandes orquestras imposta pela extinção dos antigos cassinos, Aracy brilhou mais uma vez. Neste tom intimista, ela se aproveitou como poucos da sua valorosa interpretação para conquistar de vez os pequenos palcos que se proliferavam pela cidade. Foi assim que viu Sérgio Porto apresentar sua parceria com Billy Blanco, os dois acompanhados pelos rapazes de Roberto Menescal, num show que virou disco, “Ao vivo no Zum-Zum”. Ou ainda desfilar nas boates do Barão Von Stuckart seu repertório que nascia em Noel e desaguava em Antônio Maria, passando por Fernando Lobo e Ary Barroso. Até brilhar nas casas noturnas paulistas com o ensolarado samba carioca via o “trem dos covardes”, o antigo trem de prata, dividindo cabine com Vinícius e Ciro Monteiro.

A disputa por um acento nos seus shows despertou o interesse do meio de comunicação que despontava nesta década de 50. Ainda muito incipiente, as emissoras de televisão procuravam trazer para a pequena tela os grandes astros da noite brasileira. Araca percebeu logo que este novo veículo poderia ser conquistado de duas maneiras: com sua inigualável forma de cantar (“essa timbração anasalada da voz brasileira”, segundo Mário de Andrade, “conheci completamente…”) e com o seu próprio jeito de ser. E a Dama da Central virou personagem transmitida em rede nacional e figurinha fácil nas emissoras de TV, ambiente onde trabalhou até um edema pulmonar e um aumento de pressão terem a tirado de campo em 1988.

Mas conquistar veículos de comunicação não era novidade para Aracy. Cansada dos hinos religiosos que entoava na igreja durante a sua infância, foi procurar ganhar algum “dinheirim” no circuito das rádios cariocas. Passou pela Cruzeiro do Sul, Philips, Cajuti, Marynk Veiga, Tupi e finalmente a Rádio Nacional. Distribuiu sucessos com sua voz pequena e poderosa até ganhar a merecida alcunha de César Ladeira: “O samba em pessoa“. Descobriu que a sua forma malandra de cantar era infalível no êxito das músicas de carnaval. E assim foi desfilando um relicário até encontrar um porto seguro nas boates da cidade em fins dos anos 40. Mas foi no início da sua carreira na Rádio Educadora, em 1933, que conheceu Noel (“era uma pilantrinha muito magra…”). Dali teriam ido direto à Taberna da Glória onde uma legião de meliantes e malandros (“esses pilantras…”) teria ajudado a forjar o caráter e o extenso vocabulário carioca da intérprete, revivido naquele LP no início dos anos 50. Nesta “universidade”, Araca se formou com louvor até virar uma figura de referência abraçando os salões do samba nos anos sessenta e ajudando a impulsionar com seu aval iniciativas históricas como o Zicartola e uma séria de apresentações comandadas pelo seu escudeiro e confidente Hermínio Bello de Carvalho. Mas os esforços em salvar as glórias nacionais se mostraram muitas vezes inúteis e fizeram a Arquiduquesa do Encantado ditar inconformada para Caetano Veloso a letra da canção “A voz do morto” em plena Bienal do Samba de 1968. Em meio a crise do samba na época, Aracy protagonizou a música de Caetano evocando mais uma vez Noel, desta vez num chamado contundente, cansada de arrastar pelo tempo seu antigo parceiro como um defunto indigente. Agora Aracy de Almeida faz 100 anos. E aí, alguém vai querer salvar as glórias nacionais?

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