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Almirante e “O Pessoal da Velha Guarda”: memória, história e identidade na música brasileira – 1ª parte

22 de agosto de 2014


 

* Por Anna Paes

Ainda que desconhecido do grande público, o programa de rádio O Pessoal da Velha Guarda representa um acontecimento marcante na história da música do Brasil. Redigido e apresentado por Almirante, um dos mais renomados radialistas brasileiros, e tendo Pixinguinha como diretor musical, o programa foi transmitido semanalmente do teatro-auditório da Rádio Tupi, durante cinco anos (1947-1952), tendo dois objetivos principais: despertar na sociedade brasileira o interesse pela valorização da memória da música popular urbana do país e criar um espaço de referência estética em que determinados padrões seriam veiculados como representativos da identidade musical brasileira.

A justificativa de Almirante para a existência do programa foi a necessidade de promover um movimento de “reabilitação” da música popular brasileira, que na sua visão se encontrava sob ameaça de descaracterização diante do crescimento da indústria fonográfica marcada pelo cosmopolitismo no período do pós-guerra. Com a queda de Getúlio Vargas e da política fortemente calcada no nacionalismo, o novo governo permitiu que empresas multinacionais se estabelecessem no país. Esse quadro provocou transformações na sociedade, que passou a se abrir cada vez mais para a influência da produção cultural estrangeira.

Vocês decerto já perceberam o propósito brasileiríssimo destas audições, mas não será demais repetirmos que estes programas hão de ser sempre como um oásis a que poderão recorrer aqueles que apreciam nossas músicas de ontem e de hoje. É com verdadeira tristeza que vemos cada vez mais aumentar o desinteresse pelas músicas de nossa terra, enquanto cresce a macaqueação que faz alarde de suas referências pelos ritmos estrangeiros. Não há nesta nossa atitude, nestes programas, simplesmente espírito de patriotismo, não. Há também espírito de justiça, pois ninguém poderá negar que haja no populário musical do Brasil maior riqueza do que de muitas outras terras. Admiremos a música dos outros países, mas antes amemos e exaltemos a música de nossa terra“. (Almirante, 1947)

Com duração de 30 minutos, O Pessoal da Velha Guarda contava com a participação de três conjuntos diferentes que se intercalavam, cada um responsável por pelo menos dois números musicais. A Orquestra do Pessoal da Velha Guarda executava arranjos de Pixinguinha sob sua regência. O Grupo de Chorões, no qual se destacava o bombardino de Raul de Barros, tocava choros e acompanhava cantores convidados, entre eles Ademilde Fonseca e Paulo Tapajós. Pixinguinha, com seu saxofone, formava dupla com o flautista Benedito Lacerda, este à frente do seu regional, um dos mais célebres conjuntos da história da música popular brasileira, composto por Dino 7 Cordas, o violonista Meira, o cavaquinista Canhoto, Gilson no pandeiro e Pedro da Conceição na percussão.

O conteúdo musical do programa privilegiou o repertório do período de constituição da música popular brasileira no Rio de Janeiro, na virada do século XIX para o XX (polcas, choros, valsas, tangos, schottischs, modinhas, etc.), além do repertório autoral de Pixinguinha e de alguns poucos compositores contemporâneos alinhados à estética musical do programa. Pela primeira vez esse repertório foi veiculado através do rádio, com abrangência nacional, e exposto como símbolo da identidade da música popular brasileira. Até então apenas o samba havia conquistado a chancela de gênero representativo da nacionalidade, no seu processo de consolidação pelo rádio nos anos 1930.

As falas de Almirante que pontuavam as audições forneciam aos ouvintes contextualizações históricas e sociais das músicas, além de orientações estéticas sobre a forma como o repertório deveria ser executado e apreciado. Nessa passagem, por exemplo, conta a origem da gíria “chaleira” – que significa adulador – e serviu como fonte de inspiração para dar título à música:

Um certo presidente da República, nas suas viagens durante a campanha para sua eleição, costumava levar consigo uma pequena chaleira de prata, porque ele mesmo gostava de preparar não sei se o seu café ou o seu chá. Cercado como andava por indivíduos interessados em cair nas suas boas graças, era frequente ver-se quando um ou outro, em requintes de amabilidade, se esforçava para poupar ao futuro presidente o trabalho de preparar ou de servir a sua bebida preferida. Os mais afoitos, mal o ilustre homem manifestava o desejo de saborear a sua bebida, avançavam para a pequena chaleira e, na ânsia de serem os primeiros, a seguravam por onde calhasse, ou pelo cabo ou pelo bojo e até pelo bico. Com isso, naturalmente, queimavam os dedos. Nasceu daí o dito popular ‘chaleira’ para designar adulador e a expressão pegar no bico da chaleira para indicar aquela ação de adular. O dito da moda deu motivo a uma canção carnavalesca da autoria de um famoso mestre de banda que se ocultava sob o pseudônimo de Juca Storoni, e foi o maior sucesso do carnaval de 1909. É isso que vamos lembrar agora com este número célebre que se inicia com os clarins típicos do carnaval daquele tempo, hein? O auditório, se quiser, poderá cantar conosco, pois os ouvintes de suas casas na certa vão fazer o mesmo, seduzidos pela saudade que há de despertar essa brejeiríssima polca “No bico da chaleira”. (Almirante, 1947)

*Anna Paes
Chefe da Sala de Pesquisas do MIS-RJ, sede Praça XV
Pesquisador da Música Brasileira

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