MIS Blog/ Discoteca Básica

ALDIR BLANC – VIDA NOTURNA (2005)

24 de março de 2017


 

“Eu precisava fazer esse disco. Queria mostrar a minha voz, dizer: eu canto assim”.

A 38ª edição da série Discoteca Básica Brasileira do Século XXI MIS celebra “Vida noturna”, o primeiro disco solo de Aldir Blanc cantando todas as composições. Antes, ele havia gravado outros dois trabalhos, o histórico álbum duplo em parceria com Maurício Tapajós, em 1985, e o CD comemorativo aos seus 50 anos em 1996.

“Vida noturna” tirou Aldir Blanc do seu refúgio e fez do compositor o cantor de peito aberto, com voz grave e precisa, que passeia por vielas, becos, bares, paisagens da infância, juntando seu passado e presente. São doze faixas, a maioria inéditas, do universo gigantesco e sofisticado que é o mundo blanquiano.

Com produção de Moacyr Luz e um conjunto enxuto, formado por Cristóvão Bastos (arranjos e piano) e João Lyra (violão), a gravação deixa transparecer cada vibração e tensão da voz de Aldir Blanc. Ele canta assim, e canta na exatidão da palavra.

Pode parecer paradoxal, mas “Vida noturna” também é o trabalho mais literário de Aldir Blanc, com letras complexas, repletas de referências pessoais e universais, como em “Lupicínica”, ou com altas doses de emoção e nostalgia como em “Paquetá, dezembro de 56”.

O disco abre com “Vida noturna”, lindo e doído samba-canção lançado no antológico “Galos de briga” (1976) e recebe o próprio parceiro e amigo João Bosco. Esse trabalho também tem cheiro de reencontro, João e Aldir passaram duas décadas distantes, depois de criarem uma das parcerias mais azeitadas da música brasileira.

Em “Dois bombons e uma rosa”, letra e música de Aldir Blanc, dá o recado ironicamente para a amante que vai se casar: “Não há xampu, não há creme/ que apague ou que desmarque/ da tua pele o meu beijo/ fedendo a conhaque”.  

O amargor e amor continuam nas linhas de “Lupicínica”, parceria com Jayme Vignoli, que relembra o amor de uma enfermeira do hospital Salgado Filho que tem “a chama vital de Anna Karenina”, personagem do livro de Tolstói. “Aquela mulher que dosava o soro nas veias dos agonizantes/Não teve sequer um calmante pra dor sem remédio/Que aflige os amantes”. É de rachar o cotovelo no balcão, de transcender uma dor legitimamente Lupiciniana. A faixa conta com a participação de Ubirany, membro do Fundo de Quintal, tocando caixeta.

“Flores de lapela”, canção que estava guardada, feita com o grande parceiro Mauricio Tapajós, leva a conversa para reflexões alcoólicas : “Tantos dirão tanta coisa/ Mas maldade vai sobrar/ As bocas mudando as versões/ Feito as toalhas de um bar”.

“Velhas ruas” traz melancolicamente a saudade da Vila Isabel, bairro onde Aldir Blanc foi criado, como em versos primorosos: “Ruas, pequenas sem glória/ Desde a infância na memória/ Não mais param de crescer/ Velhas ruas/ Cansado da boêmia/ Entre essas pedras um dia/ Quero cair e morrer”. E também homenagem à mãe, Dona Helena: “Quando a cortina estremece/ Vê-se a mulher que não esqueço/ Correndo as contas de um terço/ Por alguém que não lhe merece”.

“Recreio das meninas II”, parceria com Moacyr Luz, lembra do dia que Aldir Blanc foi “de bengala, tossindo, com febre, lá no Renascença”, local onde acontece há 12 anos o famoso Samba do Trabalhador, projeto idealizado por Moa. Canção provocativa sobre as possibilidades masculinas de renascer.

“Constelação maior” recebe o violão primoroso e a participação de Hélio Demiro, uma ode ao Batuque, o labrador que mexia com o coração de Aldir Blanc na época da gravação do disco, “Eu mesmo às vezes/ Abro mão do orgulho/ E com ele me deito.”

Do amor ao Batuque, o compositor vai para a belíssima “Paquetá, dezembro de 56” narrando uma história nostálgica digna dos anos 1950. As tradições da ilha são descritas em uma típica crônica blanquiana, revivendo os tempos de juventude do compositor, junto com os amigos, entre eles, o artista plástico Mello Menezes, responsável pela arte da capa de “Vida noturna”.

“Dry”, a outra nova parceria com Moacyr Luz, volta o tema ao universo dos cinzeiros, da bebida, da boêmia e responde ao “bêbado de bar”, “Mulher não tolera essas frases que homem à toa costuma dizer”.

“Cordas”, com Guinga, música gravada por Leila Pinheiro, em 1996, aparece aqui com a participação especial do parceiro, em uma das maravilhas da dupla: “E um dia, na hora do fim/ Diz juntinho de mim, bandolim/ Tim tim por tristeza, o elã de beleza/ Que há na corda arrebentada.”

João Bosco retorna com “Me dá a penúltima”, canção originalmente lançada em “Tiro de misericórdia”(1977). A faixa não estava prevista para o trabalho, mas quando João Bosco chegou para gravar “Vida noturna”, trouxe consigo um novo arranjo de “Me dá a penúltima” e surpreendeu o amigo Aldir Blanc e todos presentes no estúdio.

O disco se encerra com “Resposta ao tempo”, uma das maiores composições da música brasileira, imortalizada na voz de Nana Caymmi, e que aqui ganha o dueto dos autores Aldir Blanc e Cristóvão Bastos, fiel escudeiro dessa viagem boemia e densa que é “Vida noturna”.

Aos 60 anos incompletos, Aldir Blanc construiu seu primeiro e único trabalho solo. Mais do que um projeto de um compositor, “Vida noturna” tem aroma, gosto e história. É doce e amargurado em suas próprias doses. É o coração dilacerado, o maior transeunte noturno, o espaço transcendental para a voz de Aldir fincar-se sobre a sua obra, entre seus clássicos e canções inéditas.

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