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COMO COMEÇOU O SAMBA DO TRABALHADOR

03 de março de 2016


 

No dia 21 de maio de 2005, o compositor Ivan Mobílio − parceiro de Moa [Moacyr Luz] em sua única disputa de samba-enredo na Vila Isabel − festejou o aniversário no clube [Renacença]. A turma, como de costume, chegou mais cedo, bem antes de o samba começar e mergulhou na cachaça. Para apreciar as branquinhas, Moacyr levou dois acompanhamentos, que ele mesmo fez em casa: carne seca e jiló, a especialidade deste “compositor-chef de cozinha”.

Ficamos lá jogando conversa fora até que deu a hora de começar o samba do Renatinho (Milagres). E lamentei por termos que parar a nossa festinha para poder começar o samba. Tínhamos que ceder as mesas, as cadeiras. Aí pensei: ‘Seria bom se pudéssemos ficar direto, batendo papo, tocando violão.’”

E, em meio a esse lamento misturado com o efeito da aguardente, Moacyr Luz teve a ideia de fazer um evento no clube. Imediatamente, deixou a mesa em que estava e foi falar com o Jorge Ferraz.

− Jorge, tô com vontade de fazer uma roda aqui! Uma coisa pra reunir os amigos, com comida, sabe? − Ferraz gostou da ideia, mas se assustou com a data:

− E seria às segundas, que é a folga dos músicos. Começando às 14h.

− Duas da tarde de segunda, Moa? Como é que a gente vai fazer um evento às segundas?

− É. A gente traz compositores novos e você faz a comida.

E Jorge Ferraz topou a ideia com uma das mais cariocas das expressões:

− Já é!

No dia seguinte, iniciou-se o movimento para articular a roda que sequer tinha nome. Seu espírito era pra lá de informal e o objetivo era apenas reunir músicos que estavam de folga e os amigos. Não havia roteiro, repertório e nem segurança na porta. A única coisa certa era que o cardápio estava nas mãos de Jorge Ferraz, que, na cozinha, contava com a ajuda de Paulinho Chiclete, diretor do Rena.

O presidente preparou costela com batata, iguaria venerada entre os sambistas. O prato, inclusive, serviu para dar nome ao evento que nasceu na cabeça de Moacyr Luz e se tornou real exatamente nove dias depois da conversa entre ele e Ferraz: 30 de maio de 2005, uma segunda-feira. 

Em nove dias, Moacyr fez dezenas de ligações telefônicas aos músicos e amigos que conhecia. Convidava para comer uma costela com batata no Renascença e pedia que a pessoa levasse um amigo ou amiga. Se o convidado fosse músico, ele pedia para o sujeito levar o instrumento, pois “seria melhor ainda”. Logo, os amigos foram comprando a ideia e convocando outros conhecidos. 

Luciano Macedo, o artista plástico, cantor e compositor, morador de Vila Isabel, foi um dos que atenderam ao pedido de Moa naquele fim de maio de 2005. Integrante do grupo Caviúna, Luciano falou da “costela com batata” com o amigo e talentoso músico Abel Luiz, a quem repassou a missão de convidar quem conhecesse. Naquela época, Abel já era próximo dos músicos do grupo Fé & Raiz e os convidou para o encontro.

Sem imaginar, Luciano acabou sendo para lá de importante, pois foi responsável também pelo telefonema que convidou para a roda da segunda-feira o jovem músico Gabriel Cavalcante. É que Gabriel, Abel e os músicos do Fé & Raiz – Luiz Augusto, Junior de Oliveira, Jorge Alexandre e Daniel Oliveira – formaram a base do grupo que levaria a roda adiante. Além deles, sentaram-se à mesa para tocar e cantar Didu Nogueira, Nilson Visual, Toninho Geraes, Bandeira Brasil, Tantinho da Mangueira, Marquinhos de Oswaldo Cruz, Luciano Macedo, Daniel Neves, Agenor de Oliveira, Chico da Curimba, Paulinho da Aba, Trambique, Wanderley Monteiro e Amoy Ribas, o percussionista de Brasília, que levou Moa, de carro, até o Rena naquela segunda-feira. Havia também músicos de Belo Horizonte e gente de outros lugares do Brasil. Efeito das centenas de convites feitos por telefone, mensagem de texto e e-mail. Dias antes da estreia da costela com batata, Moa ligou para Cícero, dono do Bar Samba, espaço na Vila Madalena que é uma das casas do verdadeiro samba em São Paulo.

− Você tem que vir. Você vai ver algo que vai marcar a história da gente!

− Mas eu tô com filho de colo, Moa. Fica complicado…

Entretanto, não deu outra. Naquele 30 de maio de 2005, Cícero desembarcou no Rio com a mulher e o bebê. Entraram no Renascença empurrando um carrinho. Baiano, do famoso e saudoso Bar Getúlio, que por anos recebeu boêmios fiéis no Catete, na Zona Sul do Rio, também esteve na estreia. Era só mais uma prova de que samba e botequim andam juntos.

Os portões ficavam abertos, não se cobrava entrada. A roda foi montada no lugar em que ela é feita até hoje: próxima à caramboleira.

Quatro mesas de ferro, daquelas enferrujadinhas, como lembra Moacyr, foram armadas para receber os músicos.

No dia anterior, um domingo, o clube recebeu outro evento. A tímida aparelhagem de som − com três microfones e duas caixas de som – não foi desmontada, permaneceu no Renascença e acabou sendo aproveitada por Moa e companhia. Ou seja: o primeiro dia da roda, ao contrário do que muitos lembram, teve sonorização sim, mas por pura obra do acaso.

Sobre as mesinhas, além dos fios dos microfones usados pelos cantores, passeavam incontáveis garrafas de cerveja, algumas de cachaça e pratos com comida. A costela com batata preparada por Jorge Ferraz ficou marcada na lembrança de todos e deixou saudade. 

Naquela tarde e noite da última segunda-feira de maio de 2005, cerca de 40 pessoas, entre músicos e ouvintes, viram a roda nascer. O batuque começou às 14h e terminou às 20h.


Trecho do livro Segunda Feira – A História da Samba Do Trabalhador, onde Daniel Brunet revela os bastidores da roda de samba que entrou para a história e inspirou o surgimento de diversas outras na cidade. Com prefácio de Aldir Blanc e capa desenhada por Lan, a narrativa convida o leitor a acompanhar os passos do Samba do Trabalhador desde o início, muito antes de se tornar um acontecimento cultural carioca. À venda nas livrarias.
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