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À PROCURA DA BATIDA PERFEITA – MARCELO D2 (2003)

28 de outubro de 2016


 

Ao viver “o pesadelo do pop”, Marcelo D2 levou o samba, o funk, a bossa nova para dentro da música jovem. E mais, transformou o violão de Luiz Bonfá em base para suas rimas, reverenciou Paulinho da Viola, João Nogueira, Zé Katimba, Bezerra da Silva e bradou “Eu sou o samba”, como um enorme liquidificador de influências.

Não é à toa que nossa 18ª edição da Discoteca Básica Brasileira do Século XXI MIS chega com “À procura da batida perfeita”, trabalho lançado em 2003 por Marcelo D2.

Ainda com o Planet Hemp em plena atividade, D2 já havia gravado “Tiro é onda”, em 1998, que serviu como uma espécie de simulacro para “À procura da batida perfeita”. O nome é uma tradução de”Looking for the perfect beat”, um dos maiores sucessos dos pioneiros do hip hop, Afrika Bambaataa. 

“À procura da batida perfeita” abre com “Pra posteridade”, pequeno sample de apresentação para a chegada da faixa-título, parceria com David Corcos, toda costurada com o violão característico de Luiz Bonfá da canção “Bonfá nova”, lançada em 1962. O coro com “Eu sou o samba”, da “A voz do morro” de Zé Kéti, parece uma provocação, ou talvez um grito de liberdade, que é explicado na música seguinte ,”Vai vendo”, parceria com Mario Caldatto:

“Eu vivo o pesadelo do Pop/ Eu sei/ No Samba represento o hip hop”.

Marcelo D2 levanta a lebre das dificuldades de ser percebido dentro do samba, de conseguir sair do universo pop – onde o seu grupo Planet Hemp se lançou –, de ser reconhecido como parte de nossa maior resistência cultural, o samba. Hoje em dia, isso não é mais nenhuma questão, mas D2 foi um dos pioneiros nesse “pedido de licença”.

O hip hop à carioca chega no balanço de “A maldição do samba”, parceria com Zé Gonzales, seu companheiro de Planet Hemp. A base é feita com “Zamba Ben”, do mineiro Marku Ribas, lançada em 1973, mas recebe diferentes recortes, como a voz de Vinicius de Moraes em “Canto de Ossanha” (1966), uma citação de “O poder da criação” (1980), de João Nogueira e Paulo César Pinheiro e, no final, conta com uma excelente sacada vinda de “Argumento” (1975), de Paulinho da Viola: “Tá legal, eu aceito o argumento/ Mas não me altere o samba tanto assim”.

Marcelo D2 alterou, sampleou, copiou e cantou: “Globalizado ou não, mantenho meus laços/ Do hip-hop ao samba é compasso por compasso”. Em alguns casos, o cantor teve dificuldade com as questões jurídicas dessas suas “colagens”. Por exemplo, ele não conseguiu autorização para usar um trecho de Tom Jobim em uma de suas composições.

“Pilotando o bonde da excursão” é uma faixa que nos remete à clássica “Melô Tagarela”, produção do grande Miele e Arnaud Rodrigues, rap pioneiro no Brasil e lançado por aqui em 1979 feito sobre uma versão de “Rapper’s delight”, do trio de New Jersey Sugarhill Gang.

“Loadeando” é uma canção fraternal desde sua abertura, composta por um som de videogame.  Stephan, na época com 11 anos, filho de Marcelo D2, canta junto com o pai e mostra familiaridade com as rimas. Na faixa seguinte vem o recado para essa nova geração de MCs.

“Eu trago 8 toneladas de samba e malandragem/ Eu trago 8 toneladas de rap na humildade/ Prá falar no microfone tem que ter disposição/ 16 toneladas eu carrego numa mão”, em “Profissão MC”, D2 cita “16 toneladas”, de Merle Travis em versão brasileira de Roberto Neves, sucesso com a grande voz de Noriel Virela no Brasil.

A marca da malandragem é reforçada em “C.B. Sangue Bom”, com participação do rapper americano Will.i.am, fundador do grupo The Black Eyed Peas.

“Como diz o meu parceiro Bezerra da Silva:
Eu não preciso fazer a cabeça eu já nasci com ela”.

A relação com Bezerra da Silva é tão grande que virou disco tributo, lançado por D2 em 2010.

“Batidas e levadas” fala sobre o poder da palavra dos MCs nessa virada do século XX para o século XXI: “O microfone é o tanque/ começa a bombardear”.

Um dos hinos do samba abre a faixa “Re-batucando”. É “Do jeito que o rei mandou”, de Zé Katimba e João Nogueira, lançada em 1974. Ela vira refrão e conversa perfeitamente com o sample do pianista e produtor americano Bob James. É base de lá e de cá. Ebulição sonora. Marcelo D2 dá voz e homenageia “os verdadeiros arquitetos da música brasileira” e saúda: Chico Science, Cartola, Jovelina Pérola Negra, Tom Jobim, Candeia, João Nogueira, Dona Neuma, Tim Maia.

Para finalizar, vem “Qual é”, outro hit do disco, parceria também com David Corcos. Ela é toda costurada em “Kabaluerê” (1971), da dupla Antônio Carlos e Jocafi. Aliás, aqui temos um caso em que o hip hop é responsável por rememorar nomes poucos lembrados nos dias de hoje para o grande público.

Um dos pontos positivos do sample, da colagem, é trazer referência para a nova geração. É tão importante conhecer a base como ouvir os “Mandamentos blacks”, citados aqui por D2, em referência ao precursor Gerson King Combo. Vale lembrar que Marcelo D2 tem o auxílio de Dj Nuts nas bases e scratch, ele que é uma das referências na pesquisa sobre a música brasileira escondidas nos mais raros discos de vinil, seja LP ou em compactos.

Um disco exato, enxuto, potente com centenas de referências. “À procura da batida perfeita” é um trabalho que mexe, chacoalha. Não adianta, positivamente ou negativamente, não há ouvinte que passe intacto a esse caldeirão em ebulição. É uma obra que segue a linha de nossos repentistas, partideiros, cantadores. É a rima chegando ao século XXI, é o Rio de Janeiro tendo seu protagonista no hip hop, na sua escola perfeita que vai de Bezerra da Silva a João Nogueira, Zé Katimba, Luiz Bonfá, Tom Jobim, Vinicius de Moraes.

Ficha técnica:

Koolgmurder : Guitarra, piano
Mamão : Bateria
Mauro Berman : Órgão Hammond
David Corcos: Mini-moog
Rafael Crespo : Guitarra
Duani: Cavaquinho
Rodrigo Nuts : Scratch
Mix Mastermkike: Scratch
Tuca Milan : Percussão
Casa forte: Metais
Wagner Monteiro : Coro
Gil Miranda : Coro
Gilce de Paula : Coro
Maria Lúcia : Coro
Robson Carvalho : Coro

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