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A DESPEDIDA DO POETA… OU, UM ATÉ MAIS

05 de dezembro de 2016


 

Quando esteve no MIS/ Museu da Imagem e do Som, em setembro deste ano, o poeta Ferreira Gullar deixou registrado para a posteridade em seu depoimento, como surgiram alguns poemas ao longo de sua carreira. Foi o caso de “Traduzir-se”(veja o vídeo aqui), uma reflexão sobre sua vida pessoal, que também virou canção, assim como tantas outras, mas esta em parceria com o músico Fagner.

Na época, o artista disse em seu Depoimento para a Posteridade, “eu estava indo trabalhar na sucursal do Estado de São Paulo, ali na Rua da Quitanda, de ônibus, e ao descer perto do terminal Menezes Cortes, fui interpelado por uma pessoa que veio me dizer o quanto gostava dos meus poemas, que me acompanhava, mas eu estava era encucado, com uns problemas pessoais, mas procurei ser gentil e quando ele foi embora, pensei, enquanto caminhava para o jornal: eu sou dois, esse poeta que o cara disse, mas também um pai de família, um cara cheio de problemas. Aí pensei: eu não sou sempre o mesmo. Foi quando escrevi:

“Uma parte de mim
é todo mundo;
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera;
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta;
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente;
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem;
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?”

Poeta, ensaísta, crítico de arte, Ferreira Gullar foi tantos em um só. Ele nos deixa aos 86 anos, com um até breve, com sua grande independência de sempre, daquele que remava contra a corrente em diferentes aspectos ideológicos. O maranhense, um dos maiores autores brasileiros do século 20, eleito “imortal” pela Academia Brasileira de Letras (ABL), em 2014 deixa vazia a cadeira de número 37, da mesma forma que a ocupou, com uma linguagem tida como radical, cheia de reinvenções a cada poema.

Nascido José de Ribamar Ferreira em São Luís, em 10 de setembro de 1930, Ferreira Gullar cresceu em sua cidade natal e decidiu se tornar poeta na adolescência. Com 18 anos, passou a frequentar os bares da Praça João Lisboa e o Grêmio Lítero-Recreativo da cidade. Aos 19 anos, descobriu a poesia moderna depois de ler Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira. Um dos fundadores do neoconcretismo, junto com Hélio Oiticica e Lígia Clark, através de seus poemas, Gullar sempre expressou a necessidade de lutar contra a opressão social, fazendo da poesia engajada uma marca em sua obra.

Gullar adotou Copacabana como sua casa e muitos sentirão saudades de encontrá-lo na fila do pão nos supermercados do bairro, ou almoçando nos restaurantes do entorno da Rua Duvivier. Em sua passagem quis ir de encontro ao mar, o mesmo mar que ele gostava de contemplar em sua caminhadas noturnas.

Obrigada pela vida e por toda sua obra, grande poeta.

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