A “lata de tomate” (1954) – Por Jorge Mello


O retorno, após longa ausência.

No dia 25 de novembro do longínquo ano de 1954, um repórter do jornal Última Hora estava no Aeroporto do Galeão, aguardando a atriz Agnes Fontoura. Súbito, aquele repórter notou, de relance, um cavalheiro cuja fisionomia não lhe parecia estranha. Ele se aproximou e puxando conversa daqui e dali, o estranho se revelou: era o Zé Carioca, ou melhor, o músico Zezinho (José do Patrocínio de Oliveira), que saiu do Brasil em 1939 como integrante da Orquestra de Romeu Silva, para se apresentar no Pavilhão Brasileiro da Feira Internacional de Nova York. Deveriam voltar no final daquele ano, com o fim da exposição. Quase todos voltaram, mas Zezinho ficou por lá.

Após 15 anos ausente do Brasil, eis que ele chega inesperadamente ao Aeroporto do Galeão. Este era o seu primeiro retorno e nem os seus parentes foram avisados. Chegou com planos de passar o Natal no Brasil e retornar em seguida, por força de contratos com a televisão norte-americana.

A “lata de tomate” passou de mão em mão.

É provável que Zezinho, após rever os amigos no Rio de Janeiro, tenha ido para São Paulo, para encontrar suas filhas, com quem tinha muitos assuntos a tratar, com os antigos companheiros das emissoras de rádio, e com seus amigos.  Um destes, o engenheiro João Câncio de Póvoa Filho, conheceu Zezinho nos Estados Unidos, quando, durante a guerra, foi fazer pós-graduação na Universidade da Carolina do Norte. Eles se reencontraram neste retorno de Zezinho ao Brasil, e João Câncio ofereceu seu apartamento para uma reunião musical, contando também com a presença de Garoto e Nestor Amaral. Nessa reunião, Zezinho apresentou aos amigos o instrumento que inventara – Nestor já conhecia o instrumento, pois tocava com Zezinho no restaurante Marquis, nos Estados Unidos. Estavam também presentes na reunião as esposas de Zezinho e Nestor e um repórter do jornal Última Hora, de São Paulo, que publicou matéria sobre o encontro na edição de 27 de dezembro de 1954. Naturalmente, foi abordado na reportagem o assunto do instrumento inventado por Zezinho, com o seguinte título: “Zé Carioca inventou nos Estados Unidos a ‘lata de tomate’”. Os músicos estavam armados com seus instrumentos, mas a estrela da reunião foi o instrumento inventado por Zezinho, que passou de mão em mão.

A motivação para este invento partiu de Disney, que lhe disse:

Olha, Joe. Os Estados Unidos têm cerca de 160 milhões de habitantes, e para aparecer neste mundão de gente, você tem que ser diferente.

Zezinho, então, inventou um novo instrumento musical – um misto de cavaquinho e bandolim – que foi batizado em Hollywood por Preston Forster, dono do famoso restaurante Ciro’s, como “tomato can” (lata de tomate).

Pois a “lata de tomate” iria se juntar ao banjo, cavaquinho, violino, bandolim, ukelelê, violão tenor, guitarra havaiana, violão, alaúde e outros mais que Zezinho manejava com maestria. Estava assim apresentado este inusitado instrumento ao público brasileiro, ainda que de forma restrita.

Após passar o Natal com suas filhas e participar da reunião musical no apartamento de João Câncio, Zezinho retornou aos Estados Unidos.

Zezinho se transforma em Zé Carioca.

Zezinho nasceu em Jundiaí, SP, em 11 de fevereiro de 1902 e faleceu em Los Angeles em 22 de dezembro de 1987. Ele emprestou sua voz e inspirou Walt Disney na construção da personalidade do papagaio Zé Carioca, concebido pelo mago dos quadrinhos no contexto da “política da boa vizinhança”. A história é a seguinte: Disney, que esteve no Brasil em 1941, voltou para os Estados Unidos com o desenho do papagaio, mas sem a voz…estava acertado que o ator Grande Otelo falaria pelo papagaio, mas o empresário dele pediu alto e Disney não topou. Foi meio que por acaso que Zezinho entrou nessa história. Ele estava fazendo a dublagem para o português, de um filme do Disney, “O Relutante Dragão” num estúdio em Hollywood, quando alguém observou suas características e correu para dizer ao Disney:

Olha Walt, no estúdio aqui ao lado tem um sujeito nervoso e irrequieto, dublando um filme seu, quem sabe?

 O mago dos desenhos não perdeu tempo e correu para lá. Ao ouvir a voz e observar os trejeitos daquele rapaz, que era o Zezinho, Disney exclamou: Eureca! Ali estava a voz e a essência do papagaio Zé Carioca. Quis o destino, por fina ironia, que um paulista inspirasse a criação da personalidade e desse voz ao Zé Carioca.  Zezinho, agora Zé Carioca ou Joe Carioca, para os norte-americanos, dublou o papagaio em vários idiomas nos dois seguintes filmes: “Alô, amigos” e “Você já foi à Bahia?”, neste o papagaio contracenando com Aurora Miranda em carne e osso.

 Além de virar uma celebridade, por estrelar nestes filmes, Zezinho participou, como músico, de todos os filmes de Carmen Miranda nos Estados Unidos, tendo construído uma carreira vitoriosa por lá.

Zezinho e Boni, amigos até o fim.

Muito cedo, em 1937, os caminhos de Zezinho e Boni (José Bonifácio de Oliveira Sobrinho) de cruzaram. Mas como??? Orlando, pai de Boni, era dentista por profissão e violonista por devoção. Nas rodas era conhecido por Caçula, e integrava o conjunto Chorões de Presidente Altino, que contava com as ilustres presenças de Zezinho, o futuro Zé Carioca e de Garoto (Aníbal Augusto Sardinha). Os ensaios eram realizados numa padaria, de propriedade do bandolinista do grupo, pai do escritor João Antônio, e as apresentações eram de âmbito doméstico, como em churrascos, por exemplo. Ainda muito pequeno, Boni guardou na memória aqueles encontros, e deles viria a falar com um amigo comum, Roberto Corte-Real, isso no início da década de 1950, quando este disse ser amigo do Aloysio de Oliveira, do Bando da Lua e do Zé Carioca. Boni então contou ao Roberto a história dos Chorões de Presidente Altino. O resultado foi uma conversa telefônica repleta de emoções e recordações entre Boni e Zé Carioca! Tinha início ali uma grande e sólida amizade! Inúmeras foram as vezes em que se encontraram, ora no Brasil, quando dos primeiros passos da cantora e compositora Maysa Matarazzo, ora nos Estados Unidos, quando Boni e Roberto Corte-Real visitaram estúdios de televisão em Los Angeles, tendo Zé Carioca a ciceroneá-los. Conhecedor de tudo e de todos nos estúdios em Los Angeles, ele abriu as portas para Boni e o Roberto.

Não se pense que Zé Carioca desfrutou de uma velhice muito confortável, com os dólares de Disney! Muito pelo contrário! Como não foi feito um contrato prevendo rendimentos oriundos de direito de imagem, ele nada recebeu por ter inspirado Disney na construção da personalidade do papagaio. Após completar 30 anos como residente nos Estados Unidos, ele passou a receber o “social security”, uma pensão concedida pelo governo norte-americano. Graças a dedicação de seu filho e ao apoio de seu grande amigo Boni, Zé Carioca pode passar seus últimos dias com dignidade. Por gratidão, ele deu para seu amigo dois de seus mais queridos instrumentos: a “lata de tomate” e o banjo tenor. Estes instrumentos fazem parte, atualmente, do acervo do Museu da Imagem e do Som (MIS-RJ) .

O físico, escritor e pesquisador musical Jorge Mello é um parceiro do MIS RJ e especialista quando o assunto é a música brasileira, tendo prestado consultoria para obras sobre a vida de diversos artistas, como Garoto e Raphael Rabello.